‘Eu chorava todos os dias’, diz mãe com Covid-19 afastada de filho

Quando a doença chegou a Curitiba, todos os cuidados foram tomados para que o jovem de 16 anos não fosse infectado, já que precisa de cuidados especiais; a mãe, porém, acabou testando positivo

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

Jorge, 16, foi diagnosticado aos oito com a Síndrome do X Frágil, uma condição hereditária que causa deficiência intelectual e pode ter sinais de comportamento importantes, muitas vezes, dentro do espectro do transtorno autista. Quando a pandemia da Covid-19 chegou a Curitiba, onde vive, todos os cuidados da família voltaram-se para ele, evitando ao máximo que o adolescente, que já precisa de cuidados especiais, fosse infectado. Porém, Sabrina Muggiati, a mãe, uma das responsáveis, teve teste positivo para o novo coronavírus e teve que se afastar por 40 dias. 


"O sofrimento que a doença causa é muito grande, mas foi gratificante sair dela, e ver o quanto a ligação mãe e filho é forte”, comenta Sabrina Muggiati
"O sofrimento que a doença causa é muito grande, mas foi gratificante sair dela, e ver o quanto a ligação mãe e filho é forte”, comenta Sabrina Muggiati | Arquivo Pessoal
 


“Eu chorava todos os dias. Os médicos que atenderam a gente usaram o termo: ‘é um furacão que passa e agora você vai se recuperando’, tanto na parte emocional, quanto na parte clínica”, comenta a mãe. Ela foi diagnosticada com Covid-19 junto com a irmã, e toda a família precisou passar pelo teste que, felizmente, deu negativo para o restante dos parentes. “Foi um momento bem difícil, a minha ligação com o Jorge é muito grande e a gente achava que ele não tinha entendimento do que estava acontecendo”, menciona. 




Mas o filho entendeu. “A gente explica. Tudo para eles é contando historinhas, então, por exemplo, para fazer a higienização das mãos tem que contar: ‘a partir de agora, tem coronavírus que causa doença e leva as pessoas ao hospital, a partir de agora vai ter que usar máscara, a mamãe vai ficar doente e vai se afastar’, tudo é pista visual”, comenta. Ela divide o cuidado do filho com o ex-marido, que ficou integralmente responsável por ele nesse período. 


Por segurança, a mãe passou a quarentena na casa da irmã, também diagnosticada com Covid-19. Todos os dias ela estava em contato com o filho por meio das plataformas digitais. O preparo anterior que a família deu sobre a doença foi essencial para que ele se adaptasse melhor à situação. “Como eles têm memória visual, existe uma agenda que usa para a rotina do dia a dia que vai se apresentando e ele vai gravando e diminuindo os dias para ver a mamãe”, explica. 


MÃES COM DIFICULDADES

O distanciamento durante a pandemia de Covid-19 é muitas vezes doloroso. Quando se trata de uma criança dependente de cuidados especiais, o processo é ainda mais intenso. Muggiati é idealizadora do Projeto Eu Digo X, do Instituto Lico Kaesemodel, que contribui com outras famílias no processo do desenvolvimento e cuidados das crianças diagnosticadas com a síndrome. 


Nesse momento de quarentena, ela afirma que muitas mães estão com dificuldade. “O mesmo trabalho que eu faço com o Jorge, divulgo nas redes para ajudar outras mães. Tenho contato com as mães e ajudo a produzirem o material para ajudar os filhos a não ficarem perdidos e ociosos nesse período de quarentena, porque a falta de rotina para uma criança autista e com síndrome do X frágil complica, desencadeia crises”, afirma.  


Mas o distanciamento piora ainda mais a situação. “A gente se falava muito pela internet, ele fala bastante, mas a fala é atrasada. Ele entende bastante a gente e sempre perguntava como eu estava. Eu dizia que estava melhorando, que eu tinha saudade, a gente contava uma historinha para ele com uma ficha mostrando que os dias para o reencontro estava diminuindo”, menciona. 


APRENDIZADO

Apesar dos dias ruins, pela doença e pelo distanciamento, ela reencontrou os filhos, Jorge e Giorgia, 18, personagem essencial durante o processo. “A minha filha é muito especial, ela cuida desse irmão... Eu fico emocionada. Eu tenho dois filhos, cada um do seu jeito, e ele é alucinado por ela. Você não tem ideia do que essa menina cuida desse irmão, é surreal o que ela faz por ele”, conta emocionada.  




O período trouxe desafios, mas também aprendizados para repassar a outras mães. “A pessoa especial também tem mãe especial para poder ajudar o filho. É muito difícil, cansativo, muitas mães não têm paciência, os filhos precisam da ajuda”, aponta. Depois de 40 dias afastados, o reencontro traz o final feliz de umas das historinhas contadas para Jorge. “O sofrimento que a doença causa é muito grande, mas foi gratificante sair dela, e ver o quanto a ligação mãe e filho é forte, e valeu a pena lutar dia a dia para a cura”, comenta aliviada.   

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