Estupro: um mal que sobrevive há séculos
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Em setembro, o Conselho Municipal da Condição Feminina de Curitiba lançou um projeto para mapear a violência contra a mulher. Trata-se de um site em que as pessoas podem fazer denúncias, anônimas ou não. A pesquisa visa identificar o perfil socioeconômico da vítima e do agressor. Em dois meses, 1.500 pessoas enviaram informações através dos 71 totens ligados à internet, disponíveis em terminais de ônibus e unidades de saúde. O conselho irá reunir essas informações e apresentar à prefeitura em março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher.
Além da violência doméstica, as mulheres também podem usar o site www.mulheres.curitiba.org.br para notificar casos de estupro. Muitas acabam não procurando a Delegacia da Mulher, e as autoridades têm dificuldade em saber quais as regiões da cidade onde ocorrem casos com maior frequência. Com o levantamento nas mãos, o conselho irá pedir por segurança nas regiões mais afetadas, como maior policiamento ou a criação de unidades policiais. As informações também são repassadas à secretaria antidrogas, pois, geralmente, os casos de violência têm ligação direta com o consumo de drogas.
Estresse traumático
Não existe um dado de quantos casos de estupro são registrados no Paraná, mas a pilha de processos é grande. Quando a vítima chega na delegacia, passa por uma série de procedimentos para preservar a saúde e o estado emocional. Isso inclui ir ao hospital, para a realização de exames e tomar medicamentos, e ao Instituto de Criminalística, para fazer o retrato falado do suspeito. Em seguida volta à delegacia e conclui a declaração.
A delegada Daniela Corrêa Antunes Andrade aconselha que as pessoas evitem andar sozinhas na rua, principalmente em lugares escuros, e que procurem caminhos alternativos. O estuprador pode perceber que a mulher sempre passa pelos mesmos locais para então fazer a abordagem.
Procurar ajuda é fundamental. O estresse traumático causado após um estupro se manifesta de forma diferente em cada pessoa. As que possuem tendência para a depressão podem gerar uma desorganização mental, principalmente se a vítima não tem o apoio da família. Segundo a psicóloga Célia Ferreira Winter, é comum a vítima reviver a cena do crime e perder a segurança imaginária que cada pessoa tem. O estado depressivo é uma forma de perceber que aquela ferida não curou.
A recomendação é que as vítimas recebam tratamento psicoterapêutico. ''O acompanhamento com um profissional é muito importante. É essa a oportunidade de desabafar e se organizar como pessoa'', explica a psicóloga. Mas a melhora depende da rede de apoio da agredida. Vai depender também a maneira como o parceiro irá conduzir a convivência e as relações sexuais a partir do dia da agressão.
Muitas vezes, a mulher agredida se sente culpada pelo ato. Isso ocorre por uma questão social de que a vítima provocou a agressão. ''Dependendo da personalidade, ela pode produzir a sensação de que foi responsável pela ação. Até na infância isso é registrado'', observa. Célia explica que, quando uma criança é estuprada, ela pode assumir a culpa, pois sentiu prazer na estimulação sexual. Isso ocorre porque ela não entende o próprio corpo. Essa mesma culpa pode ocorrer em mulheres adultas. Muitas têm fantasias sexuais de dominação e masoquismo, mas desde que seja uma ação autorizada. Uma coisa é ter o desejo, outra é o ato em si. ''As que sofrem a agressão acabam sentindo um desprazer ainda maior. É difícil o psiquismo produzir e organizar essa informação''.


