Fernando (nome fictício), de 15 anos, gostaria de poder estudar no período da manhã e de passar as tardes jogando futebol com os amigos. Sua realidade, porém, é bem diferente. Desde que a família se mudou do Jardim Marieta (Zona Norte) para um conjunto recém-construído, na mesma região, o adolescente passa a maioria dos dias dentro de casa, cozinhando, limpando e cuidando da irmã de 4 anos, para que a mãe e o padrasto possam trabalhar fora. Como não há creche para a caçula nas proximidades, o garoto teve que abrir mão dos estudos e das atividades típicas da idade.
''Sonho em ser veterinário, mas se não estudar talvez tenha que ser catador de papel'', resigna-se Fernando, que deixou de frequentar as aulas de 8ª série há cerca de dois meses. Nos dias em que a mãe a fica em casa, ele aproveita para treinar futebol, em uma escolinha em que está matriculado, mas quase nunca consegue participar das competições. ''Hoje mesmo meus amigos estão em Curitiba, jogando, e eu não pude ir'', contou.
Em um bairro próximo, outra adolescente passa os dias longe dos livros, envolvida no trabalho com vassouras, baldes e panelas. Carla (nome fictício) perdeu a mãe aos três anos e já morou com vários parentes. Hoje, aos 15 anos, cuida de tudo na casa do irmão e da cunhada - inclusive do filho deles, de 3 anos - enquanto o casal trabalha. Ela é responsável por lavar, passar e cozinhar, e se ressente de não poder sair sozinha com os amigos. ''Meu irmão não deixa'', justifica.
O surpreendente é que a garota, que pretende retomar os estudos em breve em um curso supletivo, não se considera nova demais para tanta responsabilidade, e ainda enxerga alguma ''vantagem'' nisso tudo: ''Se eu tiver um filho antes da hora, pelo menos vou saber cuidar dele'', argumenta. (S.L.)

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