Uma mulher de 29 anos morreu no ano passado em Ribeirão Preto (SP) em função de um ataque de vírus da dengue do tipo 1 contra o coração, segundo uma pesquisa realizada pela professora do curso de Emergência e Cirurgia Vascular da Unaerp, Rosemary Furlan Daniel, elaborada em conjunto com o diretor de Medicina da universidade, Reinaldo Bestetti. O problema teria evoluído para uma miocardite (inflamação do miocárdio) e acabou culminando em uma parada cardíaca. Trata-se do primeiro caso relatado no Brasil.
Os pesquisadores avaliaram os casos de óbito que aconteceram após a epidemia de dengue o ano passado no município. ''Conseguimos avaliar a evolução desses pacientes durante a internação, o resultado da sorologia e o laudo da necropsia'', explicou Rosemary.
''Tivemos 12 casos de óbito por dengue e um chamou a atenção porque a paciente não tomava nenhum medicamento, não tinha histórico de doença cardiovascular prévia e apresentou o primeiro sintoma da dengue em um domingo, na quarta-feira precisou ser internada e logo morreu por hipotensão acentuada, com parada cardíaca'', salientou. No laudo foram encontradas alterações pulmonares, hepáticas e a que mais chamou a atenção foi a alteração do miocárdio, devido ao ataque do vírus nas paredes do coração.
Ela relatou que realizou uma pesquisa na literatura especializada nacional e internacional e encontrou casos descritos de miocardite pelo vírus tipo 3 e alguns estudos com relato dessa complicação em crianças. ''A maioria desses trabalhos tem como origem a Índia, a Tailândia, alguns países da América Central e outros países do Oriente, mas não encontramos relato de miocardite fulminante pelo vírus tipo 1'', destacou.
Visão
Rosemary explicou que a importância desse caso é a identificação de mais uma doença potencialmente fatal (miocardite fulminante) ligada também ao vírus da dengue (DEN 1). ''Esse tipo de vírus em uma epidemia de dengue é identificado logo no início, através da sorologia'', expôs.
Ela acredita que mais casos de óbito podem ter acontecido em função do ataque do vírus no coração, mas reforçou que só teria certeza disso com um estudo maior dos casos registrados, sua evolução e o laudo da necropsia. ''Mas também temos os casos de miocardite não fulminante por dengue que também não são acompanhados convenientemente'', apontou. A professora acredita que a visão do paciente com dengue deve ser mudada.
''Normalmente a nossa preocupação maior é com a 'fase aguda', quando o paciente pode desenvolver o choque da dengue e as suas complicações, o que está correto. Porém, e aquele paciente que teve dengue, que os exames laboratoriais (hemograma) se normalizaram, mas ele continua tendo algum tipo de sintomatologia, ou seja, uma melhora arrastada? Será que ele tem alguma alteração cardiológica? Onde ele será acompanhado?''
O trabalho sobre o caso será publicado no Journal of Clinical Virology, publicação oficial da Sociedade Pan-Americana de Virologia Clínica e da Sociedade Europeia de Virologia Clínica.
A assessoria de Comunicação da Secretaria Estadual de Saúde do Paraná (Sesa) afirmou que por ser um caso raro não iria se pronunciar a respeito de possíveis mudanças no tratamento e no diagnóstico que a descoberta possa provocar no atendimento de pacientes com dengue.

Imagem ilustrativa da imagem Estudo faz ligação entre dengue e coração
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