Estudo é um direito negado ao soldado
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de maio de 2000
Telma Elorza De Londrina 
Mudou, mas para pior! Este tem sido o tom de telefonemas e cartas que a Folha tem recebido nas últimas semanas, dois meses depois que o jornal publicou uma série de reportagens sobre o dia-a-dia estressante e a falta de condições de trabalho dos policiais militares do Paraná.
As reportagens foram publicadas em fevereiro e mostraram o desgaste e o estresse do cotidiano na Polícia Militar (PM), como um possível agravante para atos violentos cometidos por integrantes da corporação. A série trouxe denúncias de ex-policiais e policiais da ativa de todo o Estado sobre desmandos e arbitrariedades cometidas pelos superiores, respaldados pelo Regimento Disciplinar do Exército.
A série foi encerrada com uma entrevista do comandante geral da Polícia Militar, coronel Guaraci Moraes Barros, que prometeu uma série de mudanças e negou a maioria das denúncias.
Mas em uma das recentes denúncias que chegaram ao jornal, bombeiros do 3º Grupamento reclamam de uma norma interna baixada pelo comandante, tenente-coronel Ariovaldo de Gouveia Sobrinho, que proíbe a troca de turnos de serviço. Com a nova norma, os bombeiros denunciam que o comando está tentando impedir o acesso dos membros da chamada praça de pré (que reúne soldados, cabos e sargentos) ao estudo. O 3º Grupamento do Corpo de Bombeiros tem sede em Londrina e destacamentos em Arapongas, Rolândia, Cambé, Ibiporã, Cornélio Procópio, Jacarezinho, Bandeirantes e Santo Antônio da Platina.
A Folha obteve uma cópia do memorando número 005/2000, datado de 27 de março deste ano e assinado pelo capitão Nilson dos Santos Bezerra. No memorando, o capitão informa a todos os comandantes de batalhões e destacamentos do Corpo de Bombeiros da região que, a partir daquela data, fica terminantemente proibida a troca de serviço entre militares, exceto para aqueles que estejam comprovadamente cursando até o ensino médio ou em casos de extrema necessidade a ser avaliado.
Segundo um dos denunciantes um oficial cuja identidade é preservada , esta foi a forma encontrada pelo comando para podar o estudo, principalmente de nível superior, dentro da PM. O estudo superior não serve para nada na corporação. Ali, só é aceito a Academia de Guatupê. Ou faz a academia ou não faz nada, afirmou. Segundo o oficial, que não concorda com a postura do comandante, não é interessante para a corporação que os comandados tenham nível cultural igual ou superior aos oficiais. Quanto mais cultura, maior a contestação, principalmente sobre o RDE (Regulamento Disciplinar do Exército).
Para o oficial, a postura do tenente-coronel entra em choque com o que o comandante-geral da PM pregou na entrevista que concedeu à Folha, publicada no dia 25 de fevereiro. Ele disse que queria profissionais qualificados, competente e evoluídos na corporação. E que a solução para crescer inclusive dentro da PM era estudar. Mas estudar como se não há incentivos? Poucos soldados na ativa conseguem fazer a academia e agora não estão podendo ter acesso nem a um curso de nível superior porque todos os pedidos estão sendo recusados sem serem avaliados, disse.
A norma, segundo ele, não vale para os oficiais. A maioria continua trocando suas escalas de serviço sem o menor problema. E nem é com os mesmos objetivos. Mas principalmente para atender outros compromissos de trabalho, como em escolas de condutores de veículo, apontou. Cursos técnicos como o de informática também foram prejudicados. Há uma enorme incoerência. O próprio grupamento firmou um convênio com a Prefeitura de Londrina para aulas gratuitas de informática. Cerca de 40 bombeiros estão praticamente impedidos de concluir o curso, afirmou.
Segundo ele, os poucos que conseguem concluir uma faculdade acabam pedindo baixa porque não são aproveitados no serviço. Já tivemos um enfermeiro formado que poderia ter sido aproveitado no próprio Siate e não foi. Temos outros que estão fazendo faculdade de análises de sistemas. Mesmo assim, a corporação que está se informatizando prefere pagar para serviços de terceiros, disse.
Outro ponto levantado pelo oficial foi sobre as pressões internas. Muitos dos socorristas do Siate, você pode observar, estão envelhecidos precocemente. E não há nenhum tipo de serviço oferecido contra estresse. Além disso, ninguém pode reclamar. Uma queixa sequer pode ser motivo de prisão, disse. As punições são, segundo ele, frequentes e absurdas. E a maioria é provocada por antipatias de alguns oficiais contra os soldados, afirmou.
O pessoal da praça de pré ganha mal, mas a maioria dos bombeiros está ali por que ama o que faz. Quando o pessoal pede baixa, a gente nota que o faz com tristeza. Eu tenho certeza que o Corpo de Bombeiros funcionaria muito bem sem 95% do militarismo imposto, afirmou.


