IML SEM ESTRUTURA Estudo é afetado por falta de corpos Curso de medicina tem atividade com o uso de bonecos, enquanto no IML corpos apodrecem por falta de equipamento adequado Kraw PenasOUTRO DESTINOSó no IML de Curitiba, de 50 a 60 corpos poderiam ser encaminhados às universidades todos os meses James Alberti De Curitiba A falta de estrutura dos Institutos Médicos-Legais (IMLs) do Paraná e acusações supostamente inverídicas de vendas de corpos não identificados – os chamados indigentes – estão afetando, pelo menos há três anos, o ensino das universidades do Estado. Em Curitiba, desde maio do ano passado, nenhum cadáver foi destinado às instituições, que precisam dos corpos para aulas e pesquisas de anatomia. A médica legista Marilda Guimarães, chefe do Necrotério do IML de Curitiba, revela que entre 50 e 60 corpos não identificados ou identificados e não reclamados poderiam ser encaminhados às universidades todos os meses. Esses corpos representam menos de 10% dos cadáveres que chegam ao instituto. Mesmo assim, poderiam resolver a grave deficiência das faculdades. Construída em 1975, a geladeira onde os corpos são conservados é o calcanhar de aquíles do IML. ‘‘Os motores têm problemas quase todas as semanas’’, revela Marilda. A geladeira possui dois motores, que são ligados a 69 câmaras-frias. Quando um deles estraga, os corpos que estão em conservação também não resistem e têm que ser enterrados às pressas. Para chegar às universidades, os corpos devem ficarm no IML por 30 dias, tempo em que as famílias podem reclamá-los. Depois, alguns procedimentos legais devem ser tomados. Entre eles, a catalogação de dados que possam identificar o cadáver e a divulgação em veículos de comunicação, em caráter de ‘‘utilidade pública’’. Tal publicação nunca ocorreu, segundo o delegado Leonyl Ribeiro, interventor no IML de Curitiba há 35 dias e chefe da Coordenadoria das Comissões de Processo Disciplinar. ‘‘Acho que isso acontecia por desconhecimento da lei e por comodidade (dos funcionários do IML)’’, diz. Na análise que faz da lei, a publicação não deve ser cobrada pelo jornais. Por questões estruturais ou legais, o certo é que a falta de cadáver é uma ameaça a qualidade do ensino nas faculdades. O professor José Geraldo Calomeno, chefe do Departamento de Anatomia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e presidente da Comissão de Distribuição de Cadáveres para Estudo e Pesquisa, acredita que a degradação dos corpos usados nas faculdades já comprometeu a formação de alunos. A UFPR, por exemplo, tem dois ou três cadáveres para cada 100 alunos. Alguns deles são usados há quase quatro anos. ‘‘É um absurdo’’, diz. Acuados pelo problema, universidades tentam fugir da limitação e buscam os moldes e bonecos de plástico como alternativa. Uma delas é a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). O professor Alberto Accioly Veiga, diretor do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da PUC, entende que, para ensinamentos básicos de anatomia, os bonecos são até mais didáticos. ‘‘Eu não vejo prejuízo algum aos ensinamentos’’, afirma. Para a formação de cirurgiões, avalia, a situação é completamente diferente. Nestes, os cadáveres são considerados indispensáveis.

mockup