Estudo condena hidrelétricas no Tibagi
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de março de 1999
Da Redação 
Pesquisadores de duas universidades do Paraná fazem um alerta sobre os riscos para a cultura indígena que a construção de usinas hidrelétricas na bacia do Rio Tibagi pode trazer. O estudo para a construção vem sendo feito pela Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel) mas, segundo os pesquisadores Kimiye Tommasino, Francisco Silva Noelli e Lúcio Tadeu Mota, das universidades estaduais de Londrina e Maringá, os relatórios, principalmente no que se refere a destruição de sítios arqueológicos e a influência na cultura dos índios que vivem na região, estão sendo manipulados.
Mário CesarAntropologiaKimiye Tommasino, da Universidade Estadual de LondrinaEm um manifesto assinado pelos pesquisadores e divulgado para a imprensa, eles se dizem preocupados com os rumos éticos e científicos das discussões sobre as usinas hidrelétricas projetadas para a bacia do Tibagi.
Juntos desde 1994 pesquisando a realidade arqueológica, histórica e antropológica do Paraná, em especial das populações indígenas da região do Tibagi, eles apresentaram o resultado do trabalho em vários congressos, seminários e workshops, além de publicações dirigidas aos meios acadêmicos.
Segundo os pesquisadores, os resultados do trabalho deles não estão sendo considerados ou, pelo menos, discutidos pela antropóloga Cecília Maria Vieira Helm, que assessora a Copel e é a autora do laudo antropológico encomendado pela empresa. O mesmo acontece com os arqueólogos Cláudia Inês Parellada, maria Fernanda Maranhão Kluge e Odelmar Blasi, que realizaram os estudos arqueológicos dos Estudos de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA).
Marcos NegriniHistóriaLúcio Tadeu Mota, da Universidade Estadual de MaringáÉ uma pano de fundo para inglês ver, denunciam pesquisadoresEsses relatórios não primaram pela seriedade profissional e científica. Em relação aos sítios arqueológicos, já localizamos mais de 40 abaixo da linha de inundação de alguns trechos das áreas indígenas de Barão de Antonina e Apucarana, enquanto que os laudos sustentados pela Copel e pela antropóloga Cecília Maria Vieira Helm registram um número ínfimo de sítios arqueológicos: o laudo realizado pela arqueóloga Cláudia Inês Parellada registra apenas um sítio na área indígena de Barão de Antonina, acima da linha de inundação, e o laudo realizado pelo arqueólogo Oldemar Blasi, na área indígena Apucarana, registra apenas nove sítios.
Ainda segundo o manifesto, de acordo com diversos membros da comunidade Kaingang, os arqueólogos ficaram poucos dias, não percorreram toda a área da aldeia e não consultaram a comunidade em busca de informações. O laudo revela também a fragilidade metodológica empregada, que já é clássica no Paraná, através de outras áreas de implantação de usinas hidrelétricas.
Segundo os pesquisadores, na pesquisa histórica do Estudo de Impacto Ambiental e do Relatório de Impacto Ambiental, foi feita uma compilação muito incompleta das pesquisas já realizadas, sem qualquer contextualização, análise crítica ou demonstração de continuidade/descontinuidade sóciocultural em relação à situação atual. É um pano de fundo para inglês ver e que em nada contribui para uma visão crítica das situações vividas no passado e atualmente pelos Kaingang e Guaranis.
Eles denunciam ainda que está havendo manipulação de informações tanto por parte da Copel quanto por parte da assessoria antropológica. O caso mais flagrante é a cartilha Venh Róg Rio Tibagi - elaborada pelos professores indígenas com assessoria antropológica de Cecília Helm e pelo grupo MIG da UEL que omite informações básicas dos projetos das usinas hidrelétricas. Está previsto um exército de mil a dois mil operários no canteiro de obras e alojamento dos mesmos a três quilômetros da aldeia principal da área indígena Apucarana. Isto representa um impacto sem precedentes, mas foi omitido, reforça o manifesto.


