Estudo aponta excesso de vaidade
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domingo, 09 de janeiro de 2005
Folhapress 
Ribeirão Preto - Depois de perceber no consultório uma preocupação cada vez maior dos pacientes com o corpo e a estética, a psicóloga Flávia Campos decidiu pesquisar o assunto. Ela, que trabalha no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e também tem clínica particular, entrevistou 38 universitários para sua tese de mestrado na USP (Universidade de São Paulo) e concluiu que as pessoas estão vaidosas demais.
Para 90% dos entrevistados, é importante estar sempre bem vestido e a maioria, mesmo tendo silhueta normal, faz dietas (84%). O estudo mostra também que o mesmo percentual pensa que as pessoas bonitas têm vantagens sobre as outras conseguem emprego e parceiros mais facilmente, recebem melhor tratamento e são mais respeitadas pela sociedade. ''Isso dá respaldo às crenças e necessidades internas do indivíduo e torna mais compreensíveis os sacrifícios a que eles se submetem para o enquadramento nos padrões'', afirmou a psicóloga.
Ao pesquisar na literatura americana, ela obteve a comprovação dessa crença. ''Há estudos que mostram que as pessoas bonitas são mais absolvidas em tribunais'', disse. Os indivíduos, segundo ela, associam às pessoas bonitas um caráter melhor.
Apesar de o culto à beleza estar presente em todas as épocas, no século 20 ser belo tornou-se um imperativo. ''Atualmente, tão logo homens e mulheres passam a reconhecer a própria imagem no espelho, já começam a almejar ideais de beleza. Modelos como Gisele Bundchen e Reynaldo Gianecchini são tratados como deuses pela sociedade.''
O professor do Departamento de Psicologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Sandro Caramaschi, 40, concorda. ''Hoje, uma criança de 10 anos fala de celulite. Isso é bom do ponto de vista comercial, porque se criam necessidades, como o uso de cremes'', afirmou.
Essa realidade tem causado até mesmo problemas de sa© úde. ''Há mulheres que não param de fumar para não engordar. Os homens usam anabolizantes. Os jovens, principalmente, não têm uma visão de longo prazo e não temem ter câncer de fígado daqui a dez anos'', disse Caramaschi.
De acordo com a chefe do setor de psicologia do Instituto de Cirurgia Plástica Craniofacial, Vera Lúcia Raposo do Amaral, 57, existe uma tirania contra quem não atende aos padrões determinados pela sociedade. Os ''excluídos'' sentem-se marginalizados e têm baixa auto-estima.
''Isso pode gerar os transtornos dismórficos corporais. A pessoa pensa que tem um defeito, principalmente em regiões visíveis como a face, e não sai mais de casa, olha-se no espelho mil vezes'', disse. É comum, nesses casos, que os doentes façam até 20 cirurgias plásticas - a cada operação o quadro só se agrava. ''Em busca da felicidade, a pessoa se torna muito infeliz.''
Uma maior tendência ao narcisismo, para Campos, pode representar uma grande necessidade de reconhecimento. ''Superando o que poderia ser entendido como vaidade, a busca de um corpo ideal pode ter um sentido de proteção e aceitação.''
E essa configuração de valores precisa ser mais estudada, segundo ela, para se ''evitar que a aparência seja mais valorizada do que o próprio ser humano e para que se possa combater a homogeneização das aparências, que parece reproduzir uma nova versão do nazismo''.


