Estudo aborda treinamento de deficiente mental para o trabalho
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sábado, 04 de maio de 2002
Chiara Papali<br>Reportagem Local 
Formar deficientes mentais qualificados para o trabalho competitivo pode ser uma realidade no Brasil. Essa é a tese defendida pelo psicólogo e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Celso Goyos. Ele participou, ontem, do 3º Congresso Brasileiro Multidisciplinar de Educação Especial, em Londrina, e apresentou o curso Avanços recentes na área de treinamento do deficiente mental para o trabalho.
O pesquisador apresentou a metodologia tecnologia comportamental, um ramo da psicologia considerado eficiente para ser utilizada por profissionais que atuam na profissionalização de deficientes mentais. Não é uma área da psicologia necessariamente nova, mas os profissionais não tem conhecimento dela. Diria que é uma falha na formação do profissional, alertou o professor.
No entanto, apesar do preparo adequado do profissional ser uma das maiores barreiras, outras teriam que ser vencidas - a má escolarização do deficiente e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Hoje, os empresários empregam, quase que exclusivamente, por questões de caridade, para depois desempregar porque não é viável, disse.
O primeiro passo para a mudança de realidade, segundo Goyos, é a escola assumir a preparação inicial do deficiente mental, com alfabetização e ensino de hábitos de independência, como higiene pessoal. Existem casos que o indivíduo passa 12 anos na escola e sai sem estar alfabetizado, com problemas comportamentais agravados e dependente da família para tudo. Não é atribuição da escola preparar para o trabalho, mas uma boa formação depende de uma boa qualidade de ensino, explica.
O deficiente mental, explica Goyos, pode desenvolver dezenas de atividades, desde as mais simples, como limpeza e jardinagem, até algumas mais complexas, que envolvam leitura e conhecimentos de matemática. Não vamos esperar que ele seja capaz de exercer função de médico ou engenheiro, mas é possível esperar ocupações mais humildes, ressalta. Ele cita exemplos de deficientes mentais que trabalham em bancos, separando cheques, contando moedas, e formatando esses dados no computador. Outro modelo de empregabilidade é a atuação do deficiente em repartição de correios, onde separa cartas por localidade. Infelizmente não são exemplos do Brasil, mas dos Estados Unidos, informa.
Para o deficiente mental, os principais benefícios do trabalho não advém do salário ou de sua relevância social, mas principalmente da possibilidade de aprender com o convívio com outras pessoas. Goyos não acredita que o trabalho feito em oficinas protegidas em Apaes tenham um resultado positivo. São atividades mecânicas, repetitivas, desinteressantes, que trazem pouca satisfação pessoal, na maioria das vezes mal remuneradas, e que podem desenvolver no deficiente uma grande aversão ao trabalho, além de enfatizar a segregação, afirmou.


