Estudantes trocam festas por sala de aula
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2004
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Fim de ano é hora de calçar o chinelão de dedos, reunir os amigos e embarcar para o litoral, certo? Depende... Se a falta de verba não é o problema que faz o plano de muita gente morrer antes de chegar à praia, para os estudantes que enfrentam a maratona de vestibulares pelo País não há espaço na agenda para Natal e Ano Novo. A maioria aproveita o ''descuido'' dos que deixam de lado as apostilas nesta época para afiar os conhecimentos na reta final.
Para quem já conseguiu, aos 16 anos, passar no vestibular de Ciências Aeronáuticas na Universidade Norte do Paraná (Unopar), abandonando o curso em seis meses para tentar uma vaga em Administração de Empresas no próximo vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Martchello Silva, 17 anos, é o típico ''CDF'', sigla que brilha como uma estrela na testa de alunos aplicados em qualquer roda de estudantes.
Além das quase cinco horas esquentando o banco do cursinho, Silva ainda estuda mais três horas diariamente, rotina que não quebrou nem na véspera do Natal e que será seguida na sexta-feira, antes da virada do ano.
''Os alunos são esforçados. Alguns abrem mão de muita coisa, questionando até a falta de aula na véspera do Natal e Ano Novo. Porém, orientamos que é importante não estressar, sendo preciso administrar o psicológico para conseguir desenvolver bem a prova'', explica o professor de Física, Luiz Galdino Júnior, proprietário do Vector, acrescentando que apenas 20% dos alunos não estão frequentando as aulas no final de ano. Isso atiça ainda mais a vontade de estudar de Silva, já que outros vestibulandos, como ele, preferiram deixar para relaxar só depois que terminar a maratona de provas. ''Todo esse esforço é para poder cursar uma universidade pública'', justifica Silva.
A distância que separa o estudante de Caiobá - praia a que o jovem deixou de ir para ficar estudando - é a mesma que afastou a família do rapaz do merecido ''relax'' no litoral. Os pais preferiram ficar em casa para que o filho não perdesse as aulas do cursinho. Altruísmo que, às vezes, os amigos e a namorada não entendem. ''Eles reclamam um pouco, mas preciso estudar'', destaca o rapaz.
Trocar Caiobá por fórmulas, regras e exceções é uma tarefa difícil, mas não impossível. Porém, o que você diria de alguém dispensar a oportunidade de uma viagem ao paradisíaco litoral baiano? Pois é, existe quem se dê a esse 'luxo', mas os fins justificam. É o que pensa a estudante Tatiane Silva, 18 anos, moradora em Cambé (13 quilômetros a Oeste de Londrina). Recentemente, a garota concluiu o terceiro ano do ensino médio e se prepara para prestar o primeiro vestibular para Educação Física na UEL. Depois das aulas pela manhã, a jovem trabalha como balconista numa sorveteria, encontrando disposição para mais uma rodada de estudos em casa até por volta da meia-noite. ''Se compensa trocar as férias na Bahia? Lógico. Estou atrás do meu sonho'', afirma Tatiane.
Se quem enfrenta o vestibular pela primeira vez é capaz de esquecer que é tempo de festa, ocupando a cabeça com os macetes ao invés de esvaziar o caneco, o que dizer dos que enfrentam o segundo, terceiro, quarto, sétimo...vestibular? ''A motivação que tenho é a concorrência. Com o sistema de cotas essa concorrência é o maior estímulo para estudar no final de ano'', aponta Leandro Kanesawa, 18 anos, candidato pela segunda vez a uma vaga no curso de Desenho Industrial da UEL.
Além de tentar dar a receita do vestibulando bem-sucedido, os professores de cursinhos são responsáveis por uma injeção de ânimo nos estudantes. O pique alto das aulas faz parte do kit de qualquer professor que não quer ouvir o ronco dos alunos encobrindo as suas explicações. ''O grande problema é que nessa fase, principalmente as turmas de super-intensivo, que estudam desde o começo do ano, estão cansadas. É preciso relaxar o pessoal'', afirma o professor de Literatura, o jornalista Lucas Vieira de Araújo, que há oito anos dá um duro danado nesta época do ano em cima do tablado para garantir a atenção dos vestibulandos.


