Estudantes trocam
de faculdade e dão
‘a volta por cima’
Quando mudar de rumo é melhor para a realização profissional
Lúcio Horta
Horas e horas de sono trocadas pelos livros de física, química e matemática. Quatro dias de prova marcados pela exaustão e pela pressão de um bom desempenho. Angústia e ansiedade no dia da divulgação do resultado. Quando, finalmente, sai a lista dos aprovados no vestibular, muita alegria e a chance de um bom futuro profissional.
A novela do vestibular, no entanto, nem sempre tem final feliz. Às vezes a escolha errada da profissão frustra a expectativa do aluno em relação à universidade e transforma o futuro num capítulo incerto. Quando tudo dá certo, é só alegria. Caso contrário, a história pode virar um dramalhão mexicano. Em outras vezes, um gol contra no primeiro tempo acaba servindo de motivação para a vitória no último minuto de jogo.
A cantora Cristina Tonin, por exemplo, hoje não tem do que reclamar. Realizada com a atividade que exerce e otimista quanto ao futuro, ela já é conhecida na noite londrinense pela qualidade do trabalho que apresenta, sempre com o melhor da música popular brasileira. Além disso, o curso que escolheu para fazer na Universidade Estadual de Londrina (UEL) - música, claro - tem atendido de forma satisfatória todas as suas expectativas.
O caminho que deixou Cristina tão segura sobre a profissão, no entanto, foi tortuoso. Mesmo tendo completado o extenso curso de piano (10 anos de estudo), quando chegou aos 17 anos, em 1992, ela não tinha certeza de que a música poderia ser encarada como uma atividade profissional que lhe garantisse um bom futuro. Na hora de optar no vestibular, não teve dúvidas: aproveitou a facilidade que tinha para fazer cálculos e se inscreveu em engenharia civil.
‘‘Na época eu imaginava que o curso de engenharia traria status, uma boa profissão, um bom salário’’, conta a cantora. Depois de passar no vestibular da UEL, deixou a música de lado e começou a cursar engenharia, mesmo sem encontrar motivação suficiente.
Uma situação difícil e inesperada, no entanto, acabou fazendo com que Cristina reavaliasse sua opção. Ela descobriu que tinha uma doença séria e precisou passar por um longo tratamente de saúde, por um ano e meio. Neste período, percebeu também que não adiantava nada insistir em algo que não traz satisfação. ‘‘As coisas clarearam e mudei meus conceitos. Passei a direcionar minha vida.’’
Na mesma época, quando fazia estágio no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), uma amiga que conhecia sua ligação com a música sugeriu que ela procurasse o maestro Othônio Benvenuto, regente do Coro Madrigal de Londrina. O maestro, por sua vez, indicou uma professora de canto lírico. ‘‘Descobri que tinha voz para cantar. A partir daí foi só alegria.’’
Cristina Tonin começou cantar na noite e não parou mais. Depois de abandonar de vez o curso de engenharia, prestou vestibular para música e hoje não se arrepende uma só nota da nova escolha. ‘‘Você optar em trocar de curso aos 24 anos de idade é um peso a mais. Mas eu vivia triste em engenharia e hoje meu astral é outro. Música é uma doença. Uma ótima doença’’, brinca ela, que hoje está completamente curada do antigo problema de saúde.
A falta de maturidade na hora de escolher qual profissão queria seguir também acabou adiando a escolha de outro músico de Londrina, Marcelo Camargo. Em 1988, sem muita certeza, decidiu prestar o vestibular para psicologia. ‘‘Me interessava pelo assunto, sabia alguma coisa. Mas era muito novo para fazer uma escolha como essa’’, avalia.
Camargo começou a fazer psicologia na UEL e, no primeiro momento, até achou que tivesse acertado a mão. O curso, segundo ele, era de bom nível e reunia professores experientes. Além do mais, dava também a oportunidade para que ele continuasse estudando violão, em casa, nos horários alternativos - mas sem jamais ter encarado seriamente a música como profissão.
Depois de um ano e meio, no entanto, no meio de uma crise pessoal, resolveu abandonar a universidade. Recuperado, o músico começou a trabalhar com vendas durante o dia e pensou em voltar a estudar à noite. Mas, desta vez, a escolha passou longe do que ele queria. ‘‘Escolhi economia, um assunto que estava em evidência na época, logo depois das primeiras eleições presidenciais em quase 30 anos. Além disso, poderia abrir um leque de possibilidades de emprego’’, lembra.
O músico passou três longos e difíceis anos no curso de Economia. Chegou a trancar matrícula, voltando em seguida. Mas insistia, porque não queria abandonar a faculdade pela segunda vez. ‘‘Depois de pouco tempo vi que o assunto não me interessavam muito, mas ia ficando.’’
Quando deixou o trabalho com vendas e começou a tocar na noite, Camargo encontrou um bom motivo para largar de vez a universidade e encarar definitivamente a profissão de músico. ‘‘Houve um choque de horários’’, recorda. ‘‘Tinha que estar em dois lugares ao mesmo tempo e isso fez com que eu fosse abrindo mão da UEL. Ainda assim tentei continuar estudando, até que vi que não dava mais.’’
Em 95, mais experiente e decidido sobre a profissão, Marcelo Camargo prestou vestibular para música na UEL - que, por ser curso vespertino, dá perfeitamente para conciliar com o trabalho durante à noite. ‘‘Hoje não tenho nenhuma dúvida. Quero terminar o curso e seguir essa profissão a vida inteira.’’
O jornalista Luciano Bitencourt, 30 anos, também precisou de alguns anos para ter certeza sobre a profissão que escolheu. Mais precisamente, três anos, que passou nas carteiras do Centro de Estudos Sociais Aplicados (Cesa) assistindo aulas do curso de direito. Ele foi aprovado no vestibular em 1986 e, na época, tinha apenas uma noção de que queria seguir carreira na área de humanas. ‘‘Gostava de ler e escrever. E precisava estudar à noite, para trabalhar de dia. O curso de direito se encaixava nesse perfil.’’
A decepção chegou logo depois que ele passou a ter um contato mais próximo com a profissão de advogado. Além do mais, parte do corpo docente da época, segundo ele, era conservador e pouco aberto ao debate. ‘‘Foi um choque. Percebi que não era aquilo que eu queria como profissão. Acho que na minha época faltou orientação sobre a escolha profissional’’, diz. ‘‘Um dia abandonei tudo. Saí pela porta da sala de aula e nunca mais voltei.’’
A opção pelo jornalismo veio em 1989, quando foi aprovado no vestibular de inverno. Logo no primeiro período (até então vigorava o regime de crédito), percebeu que a escolha era certa e amadurecida. Seis meses depois, no entanto, teve que abandonar novamente, mas desta vez por um motivo incontornável: bancário, foi transferido para trabalhar de manhã e não houve jeito de conciliar trabalho com escola, já que o curso na época só existia de manhã.
Em 1993, quando surgiu a primeira turma noturna de jornalismo na UEL, Luciano finalmente pôde voltar à universidade e concluir o curso. Hoje, formado, mantém na cidade uma assessoria de imprensa em sociedade com outro jornalista. ‘‘Valeu a pena. E com a experiência de vida que tenho, vejo com o jornalismo uma possibilidade concreta de realização profissional.’’

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