Estudantes pesquisam sobre Guerra do Contestado
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quarta-feira, 08 de julho de 2015
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Discutir a importância histórica da Guerra do Contestado, conflito armado pro disputa de território na divisa entre o Paraná e Santa Catarina ocorrido entre 1912 e 1916. Este foi o objetivo de um evento promovido pelo Instituto de Educação Infantil e Juvenil (Ieij), escola de ensino infantil, fundamental e médio na zona sul de Londrina. As atividades serão concluídas hoje.
De acordo com a coordenadora Eliana Morinaka, o objetivo do evento é discutir o tema de forma multidisciplinar, envolvendo matemática, história, língua portuguesa e biologia, por exemplo. O projeto é fruto de seis meses de estudo no Projeto Interdisciplinar de Aprendizagem (PIA) envolvendo 200 alunos e todos os professores da escola.
"O que estamos vendo é que tem muita coisa que não está nos livros. Nós não trabalhamos com livros didáticos, mas com pesquisa, trabalhando o desenvolvimento da autonomia dos alunos. Cada grupo de professores escolheu se aprofundar em um tema (relacionado a esse acontecimento histórico) e apresentamos nossos estudos aos alunos para que eles escolhessem o assunto que iriam pesquisar. Quando há o interesse do aluno o resultado da aprendizagem é muito mais aprofundado", destacou Eliana.
A Guerra do Contestado ocorreu por conta de problemas sociais decorrentes da falta de regularização da posse de terras e da insatisfação da população. A região fronteiriça entre Paraná e Santa Catarina foi batizada de Contestado devido ao fato de que os agricultores contestaram a doação que o governo brasileiro fez aos estrangeiros. E em dezembro de 1915, o último dos redutos dos revoltosos foi debelado.
A aluna Lorrayne Baltazar Machado, de 14 anos, do nono ano, é uma das envolvidas no projeto. "Aprendi tudo sobre a Guerra do Contestado e também como coordenar pessoas. Nesse projeto os alunos mais velhos ajudam os mais novos, já que envolve diferentes turmas", explicou.
Sobre o conflito, Lorrayne ressaltou que o que mais chamou a atenção foi a participação de mulheres de forma ativa no conflito. "Dentre as guerreiras tinha a Maria Rosa, que quebrou barreiras sociais, já que na época as mulheres não tinham nada e eram tratadas como lixo pelos homens", salientou. A aluna ressaltou ainda que Maria Rosa atingiu "feitos grandiosos".
Tanto que a expressão Joana DArc do Sertão foi cunhada por Vicente Telles, um dos maiores especialistas sobre a Guerra do Contestado. Um dos palestrantes do seminário, ele é descendente de envolvidos no conflito. Seu avô paterno era coronel e o avô materno, jagunço. "Era proibido falar sobre o assunto. Eu não sabia de nada. Fui para o Exército e, quando voltei à minha terra, os engenheiros que estavam construindo a BR-153 começaram a me falar sobre a guerra. Antes sabíamos que havia acontecido uma briga, mas não sabíamos a causa", relatou.
Depois de se aprofundar sobre o assunto, Telles descobriu o que chama de "uma injustiça muito grande" ocorrida à época, já que o governo brasileiro garantiu à Brazil Railway Company, uma companhia ferroviária pertencente ao norte-americano Percival Farquhar, 15 km de cada lado da ferrovia. Telles afirma que Farquhar teria corrompido o poder público para conseguir esse direito. E que muitas dessas terras já estavam ocupadas havia tempos por caboclos que viviam na região, entre o Paraná e Santa Catarina. "Em uma época em que havia terras sobrando e pessoas de menos, o erro do governo foi não realocar essas pessoas em outras áreas", destacou.
Após a guerra foi feita uma partilha entre as elites do Paraná e Santa Catarina, sem consulta popular. "Houve uma limpeza, que era a prisão e execução sumária das testemunhas e dos veteranos de guerra. Eu não acreditava, mas descobri que meu avô paterno requereu terras e tinha uma enorme fazenda. Ele chamava a escolta policial para prender e executar as pessoas na frente de suas famílias. O outro avô, que era jagunço, também teve que fugir para escapar da perseguição policial", relatou, com lágrimas nos olhos.


