''A justiça é cega mas as injustiças nós vemos.'' ''Isso é luto pela paz.'' ''O mundo está sendo ameaçado pelos que permitem a maldade.'' Essas mensagens permearam a manifestação realizada por alunos do ensino médio do Colégio Professor José Aloísio Aragão (Colégio de Aplicação), no Calçadão de Londrina, na manhã de ontem. Liderados pelo professor de história Roberto Cesar de Andrade, os estudantes deixaram o colégio por volta das 11 horas em direção à Praça Floriano Peixoto. Empunhando cartazes, fizeram um minuto de silêncio. Depois deram as mãos, rezaram e gritaram ao som de palmas, pedindo paz.
O ato foi motivado pela situação vivida pelo aluno Yuri Felipe Correia, de 17 anos, que foi baleado no dia 15 de junho, enquanto trabalhava em uma lan-house, na Rua Pernambuco, Região Central. Segundo testemunhas, três garotos de 12 e 13 anos usaram os computadores e, na hora de pagar, atiraram no rapaz. O tiro atingiu a coluna lombar de Yuri, que ficou paraplégico. Há 18 dias ele permanece internado na Santa Casa de Londrina. A família, ainda abalada, preferiu não comentar a tragédia.
''A iniciativa partiu dos alunos, que queriam manifestar sua indignação e tristeza. Eles procuraram a direção da escola, envolveram os professores e organizaram o ato em três dias'', descreveu o professor. Para ele, a manifestação é uma aula de cultura da paz, ''para que nossa indignação chame a atenção de todos para a violência, que amanhã pode acontecer com um de nós ou nossos familiares''.
Guilherme da Cruz, aluno do terceiro ano do ensino médio do colégio, convivia com Yuri e contou que ele é um garoto ''alegre''. ''Um dia ele estava sorrindo e no outro, travado numa cadeira de rodas'', lamentou.
''Agradecemos a Deus pela vida dele, mas é importante falar para a sociedade que não dá para viver sepultado dentro de casa. Esse é um dia de luto e também de luta, pela paz, por uma vida melhor, para que nosso direito de ir e vir não seja suprimido pelos marginais'', completou Guilherme.
Ele informou que a direção do colégio pretende melhorar a acessibilidade dos prédios para receber Yuri quando ele decidir voltar a estudar. Até então a escola não possuía nenhum estudante ou funcionário cadeirante. ''O acesso à sala de aula será alterado para que ele não sofra ainda mais violência além da física, como a emocional, de não poder mais estudar.''
Dois dias depois da tentativa de latrocínio, policiais civis de Londrina encontraram os três adolescentes. Também foi preso Gabriel Ferreira Alves, 19, que guardava o revólver calibre 38 usado no crime. Segundo o delegado do Adolescente, William Douglas Soares, os meninos ainda cumprem medida socioeducativa no Cense I (antigo Ciaadi). Alves também continua preso no 2º DP e responderá por porte ilegal de arma de fogo.
No depoimento ao delegado, os adolescentes disseram que pretendiam roubar dinheiro do estabelecimento para conhecer Curitiba. Porém, o autor do disparo que atingiu Yuri afirmou à FOLHA que ''compraria umas coisas''. O garoto de 13 anos vivia com o padrasto, que é ex-policial militar, e dele furtou o revólver. Ele teria dito que abandonou a 5 série do Ensino Fundamental há três meses e consumia baseado (maconha) e raio (cocaína). Os irmãos dos outros garotos apreendidos disseram-se surpresos com o fato. Eles afirmaram que os adolescentes tinham uma rotina comum à idade e nunca viveram situação semelhante.

mockup