A maior parte dos presos da cadeia pública e da Penitenciára Estadual de Maringá (PEM) tem menos de 30 anos, são reincidentes e voltaram ao crime depois de procurar trabalho em empresas da cidade. Uma pesquisa realizada por duas estudantes de direito da Universidade Estadual de Maringá (UEM) traçou um perfil dos presos da cidade, levantando ainda a ocorrência de contratação de ex-presidiários pelas empresas instaladas no município. A monografia, que obteve nota máxima, foi feita pelas formandas Tatiana Barbiero e Luciana Romani, em julho passado.
Arquivo FolhaVoltaEstudo apontou que índice de reincindência na Penitenciária Estadual de Maringá (PEM) é de 62%Na cadeia da 9ª Subdivisão Policial (SDP) são 170 presos e na PEM outros 346 já condenados. Na época do trabalho das estudantes, 85% dos detentos da cadeia e 62% da penitenciária eram reincidentes - tinham praticado mais de um crime. O diretor geral da PEM, Antônio Tadeu Rodrigues, explica que esse índice é normal em uma penitenciária. ‘‘Os juízes condenam a penas em regime fechado somente as pessoas que já possuem um crime, a não ser quando o delito é grave’’, ressalta. Muitas vezes, segundo Rodrigues, o preso vai para a penitenciária porque roubou uma roupa no varal de uma casa, mas já tinha outro delito grave antes.
O delegado-adjunto da 9ª SDP, Roberto Fernandes, afirma que normalmente 99% dos presos da cadeia pública de Maringá são reincidentes. A maior parte acusados ou condenados por furto, roubo e assalto. ‘‘Os presos têm que ficar aqui mesmo depois da sentença ou por falta de vaga na penitenciária ou à espera de resultado para recursos’’, explica. Ele diz que devido a grande quantidade de processos criminais, a Justiça demora para definir a situação dos presos. Alguns, segundo Fernandes, estão na cadeia da 9ª SDP há quatro ou cinco anos recorrendo de condenações que beiram os 20 anos.
Jovens A pesquisa das estudantes mostra ainda que a população carcerária é jovem. Na PEM a faixa etária de 21 a 30 anos concentra 53,2% dos presos. Mais de 84% têm idade entre 21 e 40 anos. Na 9ª SDP a média é de 25 anos. ‘‘Justamente a idade em que a pessoa tem mais potencial de produção’’, analisa Tatiana. Ela diz que a falta de oportunidades fora da cadeia é o principal motivo que levam à criminalidade, e a falta de conscientização da sociedade e de uma estrutura de apoio são as causas do alto índice de reincidência.
Arquivo FolhaConstataçãoMédia de idade dos presos na 9ª SDP é de 25 anos, quando a pessoa tem mais potencial de produçãoDas 1.634 empresas de Maringá, 313 foram consultadas aleatoriamente pelas estudantes. Muitas tiveram que ser substituídas por pura falta de interesse dos diretores em passar informações. Do total de empresas ouvidas, 94 são micro, 169 médias e 40 grandes. As que mais dão oportunidade a ex-presidiários, segundo a pesquisa, são as médias. Das 169 ouvidas, apenas nove possuem ou já contrataram ex-presos, ou 5,3% do total. Entre as grandes apenas uma dá oportunidade a ex-detentos e nenhuma micro teve ou tem pessoas que já passaram por cadeia ou penitenciária no quadro de funcionários.
As estudantes constataram ainda que a maior parte dos empresários entrevistados se contradizem. ‘‘Notamos que no primeiro contato os donos ou diretores de empresas dizem que se for necessário dariam chance para ex-presos, mas durante a pesquisa notamos que nunca tiveram nem um acusado réu primário na empresa’’, afirma Tatiana. Ela diz que os empresários alegam ainda que não sabem o que é ressocialização. ‘‘Não apenas nas empresas mas notamos que em toda sociedade falta uma estrutura para atender os presos e garantir a ressocialização deles’’, lamenta Luciana.
Atendimento limitado Os trabalhos desenvolvidos em Maringá são todos isolados, o que segundo as estudantes não dão resultados práticos conforme a realidade local. Elas citam o Conselho da Comunidade, que existe mas não tem apoio para atuar, e o Instituto Maringaense de Reintegração Social, ligado à Igreja Católica, que atende um número limitado de pessoas.
‘‘O ideal seria uma estrutura do tamanho da necessidade do município, que hoje tem mais de 516 presos’’, analisa Tatiana. Apenas a PEM libera uma média de 15 detentos por mês, boa parte da região de Maringá. Apesar da penitenciária ter um sistema interno de ressocialização.
O diretor Antônio Tadeu Rodrigues explica que, além do tratamento humano dispensado aos internos, existe uma série de atividades desenvolvidas no sentido de preparar o preso para o reingresso à sociedade. Os detentos com formação em alguma área ou com escolaridade participam de cursos de formação que vai do corte da cana de açúcar até operador de tratores na área rural, ou de serigrafia a eletricista predial.
Os presos trabalham ainda em viveiros de mudas dentro de projetos de reposição de matas nativas e estão produzindo 500 mil mudas. Os que não possuem escolaridade podem completar os estudos em cursos supletivos. Em média, cada detento da PEM custa R$ 1.200,00 por mês, contra uma diária de R$ 0,80 por preso da 9ª SDP.

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