Nem sempre as reações de crianças e adolescentes coincidem com os objetivos dos adultos. Quando os realizadores do Mapa-Piá a Mostra Audiovisual Paraná Para Infância e Adolescência levam alunos da rede pública de Londrina para os cinemas, o principal intuito é contribuir para a formação dos espectadores por meio dos filmes selecionados. Mas para a maioria desses jovens, a ida ao cinema acaba ganhando outros contornos.
''Nunca tinha estado em nenhum cinema. Gostei pra caramba, o mais legal é a tela gigante, o som alto. Foi bom para conhecer, mas eu preferia ter visto Anaconda'', declarou Vítor Hugo Souza de Oliveira, 11 anos, aluno de 5 série de uma escola do Patrimônio Heimtal (Zona Norte), após assistir a uma sequência de curta-metragens nos Cines Catuaí, ontem pela manhã. Ele foi um dos nove mil estudantes que participaram da edição 2004 do Mapa-Piá, realizada em sessões diárias ao longo da última semana.
Assim como Vítor Hugo, milhares de crianças e adolescentes têm, no projeto, o primeiro contato com as telas de cinema. O resultado disso é que eles ficam muito mais deslumbrados com o espaço, o som, as cores, a experiência da sala escura, do que com o conteúdo do filme em si. ''Cerca de 60% dos alunos que participam da mostra a cada ano vêm pela primeira vez ao cinema. O projeto foi criado para atender jovens estudantes em geral, inclusive de escolas particulares, mas acabou se caracterizando como de cunho social'', explicou o coordenador do Mapa-Piá, Caio Julio Cesaro.
Segundo ele, grande parte dos espectadores estuda em distritos e bairros bastante afastados do Centro. Guilherme Ricardo de Souza, 10, estudante no Distrito de Paiquerê, que também assistiu às sessões de ontem, contou que ele e seus colegas não têm condições financeiras para se locomover até os shoppings e pagar os ingressos. ''Até gostaria de vir mais vezes ao cinema, porque os filmes distraem, deixam a gente mais tranquilo.''
Cesaro esclareceu que, além de garantir o acesso dos jovens ao cinema, um dos objetivos do projeto é formar público para os filmes produzidos no Brasil. Na mostra deste ano, foram exibidas 11 produções, de curta e longa metragem. Ele admitiu que alguns desses filmes, como o carioca ''O resto é silêncio'', não agradam ao gosto da maior parte das crianças e adolescentes. ''Este filme é inteiramente falado na língua dos sinais, e o público fica conversando durante quase toda a sessão. É uma questão de costume estético. Mas se a gente consegue sensibilizar umas 10 crianças, já é válido''.

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