Estudantes descobrem a fotografia
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quinta-feira, 06 de maio de 2010
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
A arte passou a fazer parte da realidade de 13 alunos do Centro de Educação Básica de Jovens e Adultos (Ceebja), localizado na Área Central de Londrina. Equipados com máquinas fotográficas descartáveis, eles foram incentivados pelo fotógrafo Walter Ney a retratarem cenas do próprio cotidiano em uma oficina realizada como parte da programação do Encontro Internacional da Imagem (Fotolink). As fotos ficam expostas até 15 de maio no próprio Ceebja.
Mais do que imagens, a experiência resultou na descoberta da fotografia como uma linguagem visual capaz de contar histórias, transmitir emoções e sentimentos. Os resultados surpreenderam Ney, que já realizou oficinas similares com crianças e adolescentes. ''As histórias de vida afloraram nas fotos. Meu objetivo foi mostrar a eles, que estão em busca do tempo perdido por terem parado de estudar, que a fotografia tem o poder de, em poucos segundos, eternizar o tempo.''
Para o técnico em eletrônica Carlos Cândido, de 41 anos, a oficina trouxe a possibilidade de expressar-se artisticamente. ''Antes, arte era uma coisa distante da minha realidade. Com as fotos, pude ver a arte se manifestar como um acontecimento próximo'', filosofou ele, que passou a questionar a banalização da fotografia através dos equipamentos digitais.
''Hoje em dia a gente vê quantidade nas imagens da internet. O fotógrafo tem que colocar valor na foto. Quando revelamos no papel, não dá para deletar'', disse. Cândido, que parou de estudar aos 10 anos, voltou à escola por sentir-se em dívida consigo mesmo. ''Voltei a estudar por minha causa, para aprender. Não foi por causa do trabalho.''
A dona de casa Ilvete Vieira, 42, sentiu-se ''descoberta'' pela oficina. ''Tinha um talento dentro de mim que só apareceu agora'', afirmou. Com uma trajetória de vida comum a muitas outras mulheres que abandonaram cedo a escola para casarem-se, e retomam os estudos já maduras, Ilvete fotografou paisagens que estavam no caminho, como a Catedral, o Calçadão, a quadra esportiva e o ponto de ônibus.
''Fiquei muito orgulhosa do resultado'', contou ela, que na infância costumava brincar de fotografar com uma caixa de pasta de dentes. ''As cenas fotografadas ficam na cabeça. Quero passar esse jeito de olhar para outras pessoas.''
Bianca dos Santos Leôncio, 17, ficou contente quando a foto do gato dormindo numa colcha florida foi para o cartaz da exposição. ''Gosto das imagens bem coloridas'', disse. Marta Cassiano Rodrigues, 32, fotografou cenas do Caps, onde faz terapia duas vezes por semana. ''Comecei a achar os lugares mais legais, mais bonitos.''
Para o motorista Celso Gomes da Costa, 45, os ônibus e as ruas e rodovias por onde passa diariamente adquiriram outro significado após a experiência com Walter Ney. ''Aprendi a observar melhor o dia a dia. Fotografia também é uma forma de leitura.''
A professora Dayse Casarin Barroso Silva, da disciplina de Língua Portuguesa do Ceebja, afirmou que a atividade melhorou a motivação dos alunos para os estudos. ''No início, muitos ficaram reticentes. Depois, foram contagiados.'' Segundo ela, o trabalho com uma linguagem pouco familiar enriqueceu o relacionamento entre a turma e favoreceu a expressão oral.
Visitas a museus e exposições de fotografia ocorreram durante as oficinas e abriram novas portas aos estudantes, que passam em frente às instituições diariamente, mas nunca tinham se interessado em entrar. ''Teve aluno que depois voltou ao museu com os filhos. Foi muito enriquecedor.''
Serviço:
Ceebja - Rua Benjamin Constant, 1138, das 8h às 12h e das 14h às 22h.


