Estudantes de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) estão cumprindo até 67 horas por semana de internato no Hospital Universitário (HU). Das cerca de 6.000 horas que cada interno faz ao longo dos dois últimos anos do curso, quase a metade não entra no currículo acadêmico. Docentes admitem que sem essa carga-horária de estágio, considerada ''trabalho escravo'' por alguns alunos, o funcionamento do maior hospital público da região estaria comprometido.
A Folha apurou o fato a partir de uma denúncia anônima. Nenhum dos estudantes procurados aceitou dar entrevista, dizendo temer retaliação com consequências na avaliação acadêmica. Entretanto, durante uma reunião realizada na semana passada com internos e preceptores (docentes responsáveis pelo internato) no HU - a qual a reportagem acompanhou - ficou nítido o clima de tensão entre as partes por conta da sobrecarga de estágio.
''A gente entra no hospital às 6 da manhã e sai às 20 horas. Muitas vezes não aprende nada, fica só verificando frequência cardíaca, diurético, respiratório, para daí se tiver parâmetro X, chamar um residente. Eu podia ficar em casa, estudar, ter as minhas horas necessárias de sono. Cadê a qualidade acadêmica? Cadê a minha qualidade de vida?'', cobrou uma interna, num desabafo aplaudido por quase todos os colegas que compareceram à reunião. Atualmente, há cerca de 160 internos de Medicina na UEL.
Além do excesso de horas, os estudantes queixam-se de gastar grande parte do tempo desempenhando funções de enfermeiros ou mesmo de auxiliares, em detrimento do aprendizado clínico previsto para o internato. ''O hospital deve estar com uma queda de custo já que tem um monte de interno escravo aqui para isso'', apontou a interna. Outra aluna reclamou da falta de supervisão das atividades: ''Tem docente que você vê uma, duas horas por dia no HU, e tem docente que você nunca vê, que não discute nenhum caso com você.''
O professor de Nefrologia do curso de Medicina e ex-diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UEL, Waldir Garcia, explicou que a carga-horária dos internos resulta em uma ''semana-padrão'' de 67,5 horas, mas que esse montante não é válido para todas as semanas, nem para todas as áreas de estágio. Segundo a preceptora-geral do internato, professora Evelin Muragachi, atualmente a carga-horária curricular total dos alunos no 5º e 6º anos soma quase 3.500 horas, enquanto a extra-curricular gira em torno de 2.500 horas.
Garcia disse concordar, na reunião, com as queixas dos internos a respeito de sobrecarga de serviço e queda na qualidade de vida. Mas apontou que qualquer redução nas atividades deve levar em conta um possível prejuízo ao funcionamento do HU. ''O hospital está formatado para funcionar dessa forma. Poderia ter um batalhão de enfermeiros na maternidade, por exemplo, para fazer o que vocês fazem. Mas não tem, e se pedir o governo não vai dar. O que faz? Fecha o hospital?'', questionou.
A situação não é nova. A incorporação de estudantes no cotidiano de trabalho do HU remonta à criação do curso de medicina da UEL, que completa 40 anos em 2007. Evelin ressaltou na reunião que ''sempre houve um pacto entre os alunos e os professores para trabalhar a carga-horária adequada''. Os internos discordaram: ''Lógico que é muito mais fácil você montar uma empresa colocando um monte de gente para trabalhar sem ganhar nada. Mas o hospital não pode ser construído em cima de nós.''
Para o preceptor de pediatria do internato, Luiz Fernando Bopp, os estudantes deveriam encarar o estágio extra-curricular como um ''compromisso'' que têm com o hospital por não pagarem os estudos. ''Vocês são uma classe privilegiada e essa carga extra é uma parte do pagamento que vocês fazem à sociedade'', declarou.

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