Velório lotado, lágrimas do reitor e um discurso que atribuiu ao Estado a omissão em relação ao crescimento vertiginoso da violência em Londrina: este foi o cenário que ilustrou a cidade, ontem, após a morte de um estudante de 26 anos, vítima de latrocínio (roubo seguido de morte) em frente ao Centro Universitário Filadélfia (Unifil), na noite de anteontem. É o segundo latrocínio em três dias em Londrina. Entidades pedem mais segurança.
Conforme o soldado da Polícia Militar, Paulo Rodrigo Gazzola Monteiro, Wagner Cardoso Farias foi abordado, por volta das 22h30, por três rapazes, um deles armado, enquanto caminhava em direção ao seu carro, que estava estacionado em frente à Praça La Salle, na Rua Itararé. Ele teria tentado fugir em direção à universidade, mas foi alvejado por um disparo no tórax.
''Ele ainda conseguiu correr até o pátio da universidade onde caiu, ferido'', descreveu o policial, ressaltando que o trio teria seguido o rapaz até a Unifil, roubado a chave do carro e fugido com o veículo, um Golf preto, com placas de Londrina. Quando os socorristas chegaram ao local, o rapaz já estava sem vida.
A reitoria da UniFil decretou luto na instituição por um dia: todos os cursos tiveram as aulas suspensas ontem. Segundo o reitor, Eleazar Ferreira, a universidade vai custear todas as despesas com o funeral do estudante. Para ele, a situação poderia ter acontecido com qualquer um, o que reforça ''o ato de omissão do Estado''.
Ferreira explicou que a universidade conta com 13 seguranças em pontos estratégicos ao redor dos prédios, que monitoram a entrada e saída dos estudantes e, em casos suspeitos, pedem reforço da guarda central, por meio de rádio. Como não podem usar armas, os seguranças acionam a polícia.
''Ele tinha saído de um seminário e como era hora de movimentação de alunos, os seguranças não perceberam nada'', justificou o reitor, citando que ''meliantes sempre patrulham as ruas próximas à universidade, mas também sabem que há seguranças''. ''É impossível evitar todas as ocorrências'', reforçou Ferreira, explicando que como o carro do estudante estava estacionado próximo a uma caçamba, os seguranças apenas ouviram o estampido.
Intranquilidade
De acordo com o reitor, ocorrências policiais são constantes e refletem o que acontece na cidade. ''Vou marcar uma audiência com o governador (Orlando Pessuti) para pedir uma atenção especial às escolas. Também pretendo sugerir a criação de uma patrulha universitária noturna, das 19 às 23 horas, porque os estudantes não podem ir para a aula com a sensação de intranquilidade'', declarou Ferreira.
Em lágrimas, ele comentou que se os familiares entenderem que a responsabilidade pelo crime é da universidade, ''a Unifil vai assumir''. ''Nós e a família estamos em choque. Ele era um aluno amigo, entusiasmado, que estava vivendo uma atividade acadêmica rotineira'', disse Ferreira, completando que o jovem cursava o primeiro ano de Logística e tinha acabado de apresentar um seminário em sala de aula.
Para o coordenador do curso, Pedro Antônio Semprebom, Farias era um aluno exemplar e vinha se destacando nas matérias. ''Ele tinha uma paixão muito grande pela profissão e se dedicava com afinco ao curso. Era muito querido pelos professores e colegas de turma. É uma perda e uma grande tristeza para todos nós.''
Brincalhão
Claudemir Cardoso, tio do rapaz, contou que ele era casado há três anos e não tinha filhos. O casal morava no Parque das Indústrias (Zona Leste), onde ele trabalhava como chefe de logística em uma empresa. ''Ele começou a faculdade recentemente, mas infelizmente está fazendo parte das estatísticas.''
Ainda segundo o tio, o rapaz foi adotado pelos avós, com quem sempre morou em Londrina. Ele deixou cinco irmãos. ''Você vê a quantidade de gente que veio se despedir dele e percebe como ele era querido. Ele era uma pessoa boa, de caráter, era trabalhador e responsável. Em família, era um brincalhão. Vai fazer falta'', resumiu Cardoso, assinalando que a família está ''sem cabeça'' para cobrar justiça agora. ''É algo que poderia ter acontecido com qualquer pessoa em qualquer lugar'', avaliou o tio. Farias foi sepultado, no fim da tarde de ontem, no Cemitério João XXIII.

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