Estressada por natureza
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quinta-feira, 09 de janeiro de 2003
Betânia Rodrigues<br>rtagem Local 
Londrina - Era quase meio-dia, o sol estava a pino e Iracema apertava o passo para chegar rápido em casa. Depois de passar 20 minutos à espera de um ônibus, ela não sabia o que doía mais, se era o estômago ou os pés. Para amenizar o sofrimento ela tentava se consolar. ''Agora é tarde. Chorar não vai resolver nada. O jeito é continuar andando'', resmungava.
O motivo da pressa era o pouco tempo que ela tinha para almoçar e ir ao banco pagar as contas. Enquanto caminhava Iracema pensava como seria bom se tivesse um carro, um emprego melhor, mais tempo para as refeições e sapatos mais confortáveis. ''Ah, um dia eu chego lá...'', suspirava a atendente de loja.
Eis que de repente, ela lembra que tem um celular na bolsa. Se tivesse créditos poderia ligar para o irmão e pedir a ele que fosse ao banco em seu lugar. Nessa hora ela sentiu vontade de chorar, mas não o fez. Continuou andando. A essa altura já havia perdido metade do horário de almoço e só teria tempo para pegar o dinheiro com a mãe e correr para o banco. ''Até que não é de todo mal. Quem sabe consigo emagrecer, pelo menos, um quilo com essa ginástica'', pensou.
Conformada com a situação, Iracema sentiu menos os últimos dois quarteirões que faltavam para chegar em casa. O problema agora era imaginar a fila do banco. Da última vez que esteve lá gastou meia hora. ''Não vou suportar. Meu irmão que fica à toa a tarde inteira vai ter que fazer isso. Afinal de contas, todo mundo tem que colaborar''. Para cada argumento contrário que ele apresentasse, Iracema tinha uma resposta convincente. Diante de tantos contratempos, seu bom humor característico já tinha ido para o espaço. Naquele momento, seu maior desejo era descalçar os pés, esticar as pernas no sofá e descansar o resto do dia. ''Ainda bem que sábado está aí. Vou fazer as unhas, pintar o cabelo, beber e dormir até tarde no domingo. Isso sim é vida'', sonhava a moça.
Assim que colocou os pés na cozinha de casa e viu a mãe se virar foi logo dizendo. ''Estou morta. Não vou ao banco de jeito nenhum. Manda o Juliano que não tem nada pra fazer'', reclamou enquanto puxava a cadeira da mesa. Dona Cilene sem entender nada respondeu perguntando: ''Ir ao banco pra quê? Não tem nada pra pagar. Você está muito estressada minha filha. Toma um copo d'água e depois vai lavar as mãos para almoçar'', disse tranquilamente sem dar maior importância para o chilique de Iracema. Em poucos segundos a moça percebeu que havia se enganado. A última prestação com as Casas Pernambucanas tinha sido quitada no mês passado. O desgaste foi em vão, mas uma lição ela aprendeu: caminhar quilômetros com sandalinhas nunca mais.


