Estrelas azedas
Arquivo FolhaGreta GarboO primeiro foi Ele, o Criador. Ou não teria sido um rompante de mau humor a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, só por causa de um pecadilho que se transformaria em saudável esporte mundial? O segundo foi Caim, o pastor, irritado com o sucesso do mano Abel, o agricultor, para quem Ele só tinha elogios. O terceiro foi Noé, que ao final do dilúvio soltou a bicharada, pegou da vinha e fez vinho, tomou um porre e descobriu-se, deixando as partes ao vento. Cam, um dos três filhos, zombou dele e foi expulso de casa, a descendência amaldiçoada. Foi ou não foi produto de um péssimo humor, potencializado pela cavalar ressaca, a reação de Noé da arca à brincadeira do filho?
Arquivo FolhaCharles Chaplin
O mau humor está presente nas narrativas da Bíblia e de todas as mitologias, nos romances e nos filmes, ao longo da história da humanidade, no dia-a-dia de todos os povos. Está bem ao seu lado, em casa ou no trabalho, no rosto do atendente da repartição pública, na carranca do gerente do banco, no revirar do bigodinho do guarda de trânsito. Integra a personalidade de todos os seres humanos, e de alguns bichos, como o cão fila ou o ganso. Em alguns casos raramente, em outros, todos os dias. Atire a primeira pedra quem nunca teve nem sequer um rompante, a vontade às vezes incontida de chutar o pau da barraca, o desejo indescritível de, naquele preciso momento, ter uma granada no bolso.
Arquivo FolhaZagaloSempre foram mais que granadas no bolso o que tinham os ditadores que, sempre do jeito errado, ajudaram a fazer a história da humanidade. Eram todos eles - alguém duvida? - terrivelmente mal-humorados. Para não nos alongarmos, fiquemos apenas nos nossos, entre os quais, diz quem viveu aquela época, havia pelo menos um bem-humorado. Getúlio Vargas chegou até a ser homenageado com uma marchinha, aquela que dizia: O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. De fato, história e política à parte, Getúlio era o retrato do bom humor.
E os outros? De Castelo e Figueiredo, eram todos taciturnos, de humor azedo. João Batista Figueiredo, que dizia preferir cheiro de cavalo a cheiro de povo, certa vez foi instado por jornalistas a fazer um balanço de seu primeiro ano de governo. Cara fechada de habitual mau humor, Figueiredo colocou as mãos nas cadeiras, chacoalhou-se e respondeu: Olha aqui o meu balanço de governo. Nem fazer piada ele sabia e quem riu foi de nervoso. Figueiredo pediu para ser esquecido. E foi.
Arquivo FolhaJoão Batista FigueiredoÀs vezes o mau humor se confunde com o tédio, como o de Greta Garbo, que queria ser esquecida e a todo momento pedia para ser deixada em paz. Não foi deixada em paz e jamais foi esquecida, assim como outros entediados e mal-humorados, casos de Marlene Dietrich e Marlon Brando. Biografias registram que Charles Chaplin, um dos gênios do século, era terrivelmente mal-humorado na vida privada. Alfred Hitchcock, o bom humor em pessoa, era um terror dirigindo seus filmes, a ponto de quase ter sido agredido no set por Marlon Brando. É de Hitchcock o famoso desmentido: Nunca disse que atores são como gado. Disse que atores devem ser tratados como gado. Hitchcok não teria coragem de dizer isso ao anão Zangado, da história da Branca de Neve, ou ao humaníssimo Pato Donald.
Do cinema, é carinhosamente inesquecível o mau humor de Scarlet OHara, a personagem de E o Vento Levou, magistralmente interpretada por Vivian Leigh. Mal-humorada até a medula, Scarlet fez gato e sapato do pobre Rett Butler encarnado por Clark Gable, até capitular. Assim como Elizabeth Taylor com Richard Burton, na vida real e no cinema em A Megera Domada, pescada da obra da Shakespeare. Eram mocinhas incrivelmente mal-humoradas, rendidas ao final apenas às evidências do coração.
Personagens do cinema, docemente perdoadas por sua riqueza de alma, são perfis extraídos da vida real, do cotidiano de pessoas que, convenhamos, às vezes não merecem perdão. Muitas, apesar das sempre honrosas e bem-vindas exceções, se inserem em verdadeiras categorias, como: general de pijama, cobrador de ônibus, gerente de banco, garçom de boca-livre, síndico de prédio com criança, enfermeira de pronto-socorro, segurança de loja, comentarista de economia, bilheteiro de cinema, perua falida, zagueiro de time paranaense, nervosinho do trânsito.
Há ainda a categoria dos zagalos (felizmente ausente da reportagem ao lado), personificada no ex-treinador da Seleção Brasileira Mário Jorge Lobo Zagalo, que se caracteriza por um mau humor ininterrupto, fruto de uma inexplicável mania de perseguição, da burra certeza de estar sempre com a razão e da inexistência de qualquer traço de humildade. Os zagalos estão em toda parte, a todo instante destilando seu mau humor por onde andam, contra quem encontram e até provocando: Vocês vão ter que me engolir. Não engolimos. O mau humor dos zagalos é tão patético que chega a ser engraçado.





