Estrangeiros casados com nipo-brasileiros que trabalhavam no Japão e que agora residem no Brasil enfrentam diferenças culturais e o desafio de morar distante da família. Alguns deles vieram ao Paraná depois da crise econômica que atingiu o arquipélago a partir de 2008. Outros vieram fugindo das catástrofes que aconteceram em 2011, período em que o Japão enfrentou um grande terremoto, um tsunami e o vazamento radioativo da usina de Fukushima.
Segundo o Núcleo de Informações e de Apoio aos Trabalhadores Retornados do Exterior (Niatre), até 2007 cerca de 317 mil brasileiros migraram para o Japão para trabalhar. Desse total uma parcela de mais de 90 mil desses trabalhadores retornou ao Brasil, muitos deles casados com estrangeiros.
Entre essas pessoas está a compositora sino-australiana Emily Tam, que veio ao Brasil com o marido após as catástrofes que atingiram o Japão no ano passado. Há um ano mora em Londrina, onde atua como professora de inglês. Apaixonada pela música brasileira, principalmente pelo samba e pela bossa nova, aos poucos as canções estão ajudando no seu processo de aprendizado do português.
''De alguma forma consigo me comunicar. Com o meu marido e no trabalho eu converso em inglês e com pessoas que não entendem inglês eu uso as palavras que sei em português ou as palavras que eles sabem em inglês. Mas quando vou comer no restaurante eu apenas aponto para o que eu quero'', explica Emily.
A burocracia brasileira é algo com que ela ainda não se habituou. ''Eu odeio lidar com documentos. Tenho problemas o tempo todo para entender tudo, mas ainda bem que meu marido me ajuda'', destacou a compositora. Taxas bancárias, juros e impostos altos são elementos com os quais nem imaginava lidar.
Segundo ela, mesmo assim o Brasil é um país fácil de se viver. ''É claro que não é um país perfeito, mas é bom e gosto daqui'', declarou Emily. Ela revela que o clima similar ao da Austrália ajudou na adaptação. ''Além disso, o povo é bom, especialmente em Londrina, onde as pessoas são bem amigáveis'', avalia.
Da Austrália ela revela que não sente tanta falta dos lugares, mas das pessoas. ''Eu sinto falta de minha família e ligo para eles todas as semanas pelo Skype para matar a saudade'', explica.
O fotógrafo Ricardo Yamamoto explica que o fato de sua esposa ser estrangeira exige muito mais atenção. ''Você não consegue substituir a família dela, seus pais, seus amigos, então você precisa dar o melhor para dar um conforto, para não deixá-la sozinha, desamparada'', ressalta.
Yamamoto destacou que a maior preocupação quando Emily chegou ao Brasil foi a segurança. ''Não quero que ela passe por uma situação traumática, e isso não é difícil de acontecer por aqui'', destaca, explicando que entre as precauções estava a de não deixar trabalhar até muito tarde para evitar que voltasse sozinha para casa.
Para o garçom Yukio Kobayashi, japonês que mora no Brasil desde o ano passado, o choque cultural talvez tenha sido mais intenso devido às diferenças entre os idiomas. ''Ainda não aprendi o português, embora as pessoas sejam bastante solícitas e fiquem o tempo todo me ensinando palavras novas'', aponta.
Para interpretar sinais e placas ele apela para a dedução. ''Eu interpreto pelos desenhos e vou deduzindo o que significam. As placas ou sinais com palavras parecidas com o inglês são mais fáceis de compreender'', ressalta.
Kobayashi, que está morando em Assaí (Norte), diz que ao andar pela cidade se depara com placas escritas em japonês e isso facilitou sua adaptação. ''Com essas placas em ideogramas, a cidade me lembrou um pouco o Japão'', observa.
O salário baixo em relação ao que ganhava no Japão faz com que Kobayashi se desdobre em dois empregos no Brasil. ''De dia trabalho como garçom em um restaurante e à noite trabalho como garçom em um bar, servindo espetinhos'', explica.
Ele destaca que no Brasil ele trabalha muito mais do que no Japão, que possui uma fama de ser um País de ''workaholics''. ''A rotina é bem diferente daquela que possuía no Japão, quando trabalhava como operário de uma indústria de peças para geladeiras e ar-condicionado.''

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