Valmir Denardin
Enviado a Capanema
Sem fiscalização de qualquer força policial ou do fisco, a Estrada do Colono está se transformando em uma rota atraente para sacoleiros e traficantes de drogas. A estrada, que corta o Parque Nacional do Iguaçu em 17,6 quilômetros, é a ligação mais curta entre o Extremo-Oeste do Paraná e o Paraguai e os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do Uruguai.
Em 99, o posto da Polícia Rodoviária Federal no Km 3 da BR-163, no município de Planalto (106 quilômetros a oeste de Francisco Beltrão), fez seis apreensões de maconha, que totalizaram 264 quilos, e uma de cocaína (13,2 quilos). Nos anos anteriores, as apreensões eram raras e o volume de drogas insignificante. O posto fiscaliza os veículos que seguem para o Sul, depois de deixarem a Estrada do Colono.
Por outro lado, as apreensões de maconha caíram 75% no ano passado em relação a 97 no posto da Polícia Rodoviária Estadual no Km 20 da PR-182, em Lindoeste (40 quilômetros ao sul de Cascavel). Até a reabertura da Estrada do Colono, essa rodovia era a única ligação do Oeste e do Extremo-Oeste do Paraná com os demais Estados do Sul.
Na opinião do sargento Valdemar Alves de Lima, 32 anos, comandante do posto de Lindoeste, esses fatores são indícios claros de que, principalmente a partir do último semestre de 99, os traficantes optaram pela estrada no parque. ‘‘Já fizemos duas apreensões em que os traficantes tinham mapa com a Estrada do Colono desenhada e, errando o caminho, acabaram caindo aqui’’, conta Lima.
Por sua localização, o posto comandado pelo sargento criou fama por ser um dos que mais apreendia drogas no Brasil, principalmente maconha. Em 97, a unidade retirou de circulação 1.297 quilos da droga. No ano seguinte, esse volume caiu para 705 quilos. Em 99, as apreensões despencaram para 433 quilos. Para Lima, a Estrada do Colono está roubando da PR-182 a função de rota de passagem para o Sul da maconha produzida no Paraguai e na Bolívia.
Mesmo não exercendo, a rigor, uma atividade ilegal (desde que não ultrapassem a cota de US$ 150,00 para compras no exterior), os sacoleiros catarinenses e gaúchos que abastecem seus clientes com produtos comprados em Ciudad del Este, no Paraguai, também estão preferindo a Estrada do Colono. Para eles, a principal vantagem é o encurtamento da viagem em 120 quilômetros.
Nos dias de maior movimento – terça-feira e sábado – até 30 ônibus de sacoleiros utilizam a estrada. No final da tarde da última terça-feira, a reportagem da Folha contou 20 desses veículos cruzando a via, no período de apenas uma hora. Um guia, que comandava um grupo de Caxias do Sul (RS) e preferiu não se identificar, disse que optou pela nova rota há um mês.
A empresária Sônia Possan Loregian, 37 anos, está lucrando com esse fenômeno. Há quatro meses, ela abriu um restaurante à margem do Rio Iguaçu, na localidade de Porto Moisés Lupion, em Capanema. Oferece café da manhã e almoço, servido ininterruptamente até o final da tarde. Sacoleiros e outros viajantes que fazem uma refeição têm direito a um banho grátis, nos nove chuveiros que já instalou.
O restaurante de Sônia está numa posição estratégica, na saída da balsa que cruza o Rio Iguaçu em direção à Estrada do Colono. ‘‘Estou estressada de tanto movimento’’, brinca a empresária, que serve, em média, 70 refeições por dia, ao preço de R$ 4,00. Os sete concorrentes de Sônia em um trecho de mil metros também não reclamam do movimento.
A Estrada do Colono já é usada também por turistas gaúchos, catarinenses e uruguaios em direção a Foz do Iguaçu. A empresa gaúcha Helios opera duas de suas linhas (entre Porto Alegre e Medianeira) pela via. Para isso, utiliza uma concessão do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), obtida ainda antes do fechamento da via, em 1986.Falta de fiscalização facilita a passagem de maconha pelo Parque do Iguaçu em direção a SC e RS; sacoleiro é atraído pela distância menor
Christian RizziMOVIMENTO INTENSOSacoleiros desembarcam de balsa que cruza o Rio Iguaçu, numa das extremidades da Estrada do Colono, no município de Capanema

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