Dizem que as avós são sábias e elas são mesmo. Há muito tempo elas já sabiam o que pesquisas científicas estão comprovando só agora: contar histórias ajuda no desenvolvimento (e também na recuperação) de crianças. Um trabalho divulgado no final de 2006, feito por psicólogos da Santa Casa de São Paulo, identificou que crianças em tratamento de câncer melhoraram o humor, o estado emocional, a relação com médicos e até o apetite depois de participarem de contação de histórias.
''É muito importante mesmo, porque à medida que esta criança se solta, brinca, ela vai perguntando e descobrindo a própria doença, que na maioria das vezes é escondida pelos pais'', explica a psicóloga do Hospital Infantil de Londrina, Maribel de Salles de Melo. Junto com dez estagiários, ela realiza uma trabalho com crianças e adolescentes internados na instituição.
''Quando estas crianças entendem a própria doença acabam tendo mais respostas e, em muitos casos, melhoram rapidamente''. O professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina, Frederico Fernandes, afirma que, a partir das histórias contadas, os pequenos podem vivenciar momentos de interação e ressocialização. ''O próprio ambiente hospitalar denota a doença, então, com as histórias essas crianças se socializam a partir da criação de um mundo de fantasias, onde as dificuldades são enfrentadas''.
Fernandes, que coordenou durante três anos um projeto de extensão da UEL sobre contação de histórias, acrescenta que as fantasias são importantes, porque geralmente são criadas a partir de histórias de enfrentamento. ''Que é quando o herói tem um problema para resolver, sai em busca da solução e volta para o reino dele com a questão resolvida. É justamente o processo que essas crianças estão fazendo, uma vez que estão fora de casa em busca de solução para o próprio problema''.
A professora aposentada Dorian Rocha Guerra sabe bem o que diz Frederico. Há nove anos ela conta histórias para crianças internadas no Instituto do Câncer de Londrina (ICL). ''A reação deles é incrível, é importante, é gratificante'',diz ela, enquanto se empolga na busca por adjetivos. Com a ajuda de muitos livros coloridos, instrumentos musicais e uma imaginação sem limites, ela vai se inserindo no universo dos pequenos pacientes até virar criança. ''Eu fico como eles. Vivo e dramatizo o que estou contando. Acabo esquecendo de tudo que está a minha volta''.
A alegria é tamanha, que ela não se esquece de um menino de sete anos que a esperava no pé da escada para ouvir mais aventuras. ''Naquela época eu ia lá (no ICL) contar às terça e quintas-feiras e ele não aguentava esperar, ficava ansioso''. Com o tempo a ''equipe'' de Dorian cresceu e uma Organização Não-Governamental foi fundada. ''Agora a ONG Viver tem mais voluntários e este ano vamos começar a contar histórias no Hospital Universitário também''. Os pequenos pacientes agradecem, e melhoram.

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