'Estivemos numa praça de guerra'
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Rubens Chueire Jr.<br>Reportagem Local 
Curitiba - "Estávamos numa praça de guerra." É assim que o clínico geral Márcio Luiz Nogarolli, de Curitiba, define o cenário que encontrou em Santa Maria (RS) após o incêndio na boate Kiss, em 27 de janeiro, e que resultou na morte de 238 pessoas, a maioria jovens. Integrante de uma força de coalização formada por profissionais da saúde, ele conta que a experiência de socorro às vítimas foi "marcante".
"Estamos acostumados a ver pessoas abatidas, que passaram por uma cirurgia. Não era o caso. Se tratava de 16 jovens em coma, entre 18 e 23 anos, e os enfermeiros já os tinham limpado, tirado as fuligens, estavam bonitos, com os cabelos penteados. Todos com fraldas e uma imensidão de tubos. As pessoas não têm ideia", relata.
A força-tarefa era formada por médicos, enfermeiros, psicólogos e fisioterapeutas de Curitiba. O grupo ficou quatro dias na cidade gaúcha, auxiliando no atendimento de emergência no Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo. Atuou junto à Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), do Ministério da Saúde.
A maioria das vítimas, de acordo com Nogarolli, havia inalado muita fumaça, o que pode causar vários danos à saúde. "Uma das coisas que mais prejudica uma vítima de incêndio é a temperatura do ar que ela inalou. Você vê incêndios que destroem a estrutura metálica de um local, então imagine se uma pessoa respira um ar acima de 70 graus? Quando o ar entra vai queimando tudo", explica.
Exames apontam grandes queimaduras na traqueia e brônquios das vítimas, além de centenas de pontos pretos por causa da fumaça inalada. "Especialistas dizem que muitos dos pacientes poderão desenvolver doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) a médio ou longo prazo."
Emergência
Além de ter consultório próprio, Nogarolli também trabalha no Samu de Curitiba. Ele conta que sempre teve fascínio por emergência e, mesmo antes da formatura, já era voluntário no Corpo de Bombeiros. "Nas décadas de 80, 90, era muito difícil sobreviver somente da emergência. Por isso tive que buscar outros caminhos e agora tenho um consultório. Mas sempre fui interessado na emergência", destaca.
Logo após assistir as notícias sobre a tragédia de Santa Maria em 27 de janeiro, Nogarolli entrou em contato com sua chefia para saber sobre o envio de ajuda às vítimas. Na manhã seguinte, a viagem foi confirmada. "Fiquei sabendo que médicos do Samu estavam sendo convocados para auxiliar no atendimento e me prontifiquei.
Além de Nogarolli, as médicas Andreia Naufell e Juliana Zaninelli Maiolino, os enfermeiros Sirlei Pizzatto Cher, Maria Aparecida Bueno, Gabriela Osório Flores e Márcio Metze Weinhardt e as fisioterapeutas Patrícia Augusta Alves Novo, Isabel Cristina Hilgert Genze e Karin Juliana Cherobim Rugilo fizeram parte da equipe que foi a Santa Maria.
Pouco tempo depois da viagem, o grupo foi recebido pelo prefeito Gustavo Fruet. Na oportunidade, a Secretaria Municipal de Saúde informou que vai capacitar uma turma de 80 profissionais para atuar em situações de crise. "No meio de tanta tristeza é preciso saber que tem gente aproveitando o aprendizado e usando este momento para evitar que isto não aconteça novamente. É preciso abrir os olhos para a questão de alvarás, mudar a fiscalização. As coisas estão andando para se modificar e não estava antes disso, infelizmente. Acho que é sempre assim, temos uma tendência à inércia. Enquanto não há sofrimento, não se muda", analisa Nogarolli.


