‘Estatuto é mal interpretado’
A promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria Silva de Paula, associa o problema comportamental dos jovens de hoje à falta de formação dentro de casa.
Para ela, a educação virou um caso de polícia porque os pais não estão cumprindo com o papel de educadores. ‘‘O problema começa na família’’, afirma. ‘‘Os pais são reféns dos filhos’’, acrescenta. ‘‘Outro dia uma mulher me perguntou o que fazer com a filha de quatro anos que não obedece. Se os pais não impuserem limites, o mundo vai impor. No caso, a Vara da Infância e da Juventude.
Segundo ela, a polícia nas escolas pode até impor um certo respeito. ‘‘Mas se me perguntarem se diminuiu a violência nas escolas com a implantação da patrulha escolar no ano passado, eu digo que não.’’ A raiz da violência entre jovens e até entre crianças está dentro de casa, reforça a promotora.
Édina de Paula bate na velha tecla: pais que trabalham fora e acabam relegando a segundo plano a educação do filho. Culpados, segundo ela, os pais acabam comprando suas crianças com brinquedos fora de hora. ‘‘Os pais acham que ao suprir a parte material estão educando seus filhos.’’
Sem uma formação sólida na infância e na adolescência, período naturalmente complicado no crescimento do ser humano, a situação se agrava. Para o adolescente, de acordo com a promotora, o importante é o grupo. Os pais que antes eram vistos como heróis passam a ser aqueles chatos que só sabem cobrar.
A escola acaba assumindo a educação que cabe à família. Mas, segundo Édina de Paula, por outro lado há falhas também ao se insistir em um modelo de escola de anos atrás. ‘‘Hoje o contexto do jovem é outro. Ele está questionando mais e a escola não está acompanhando esta evolução. Algumas escolas já perceberam isso e estão buscando novas formas de educar’’, argumenta.
Uma das grandes dificuldades encontradas pelas escolas nos novos tempos é a imposição de limites. ‘‘Hoje existe a garantia constitucional. O aluno tem que ser tratado com dignidade, mas isso não significa que ele não precisa ter limites’’, explica a promotora. ‘‘A escola está amarrada ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Por desconhecê-lo, criou-se o mito de que o adolescente pode fazer tudo o que quiser.’’
Por desconhecimento, conforme a promotora, as escolas acabam enxergando o estatuto como uma ameaça. Édina de Paula diz que o modelo atual de educação é baseado na punição do aluno, como forma de impor limites. Mas como pelo Estatuto o adolescente e a criança não podem ser expostos à coersão, punições e tratamentos vexatórios, as escolas ficam sem saber o que fazer.
‘‘Impor limites não é punir. Para conseguir impor limites a escola tem que angariar o respeito do aluno’’, explica. Perdidos entre a punição e a imposição de limites, tanto os pais quanto os professores e direção da escolas acabam apelando para a Justiça quando a questão é educação.
‘‘Muitos assuntos que poderiam ser resolvidos dentro das escolas acabam indo parar na Vara da Infância e da Juventude’’, afirma a promotora. Édina de Paula conclui afirmando que ‘‘a nova educação tem que estar buscando o desenvolvimento do ser como um todo e preparando-o para a cidadania e não apenas para o acúmulo de informações. A criança tem que ser preparada para respeitar seus direitos e dos outros’’. (E.P.)

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