Dimitri do Valle
De Curitiba
Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) coloca o Paraná em segundo lugar entre os Estados brasileiros com maiores taxas de suicídios praticados com armas de fogo. O Rio Grande do Sul aparece em primeiro lugar com um índice de ocorrência de 3,1% e o Distrito Federal em terceiro com 2,7% dos casos para cada grupo de 100 mil habitantes. As ocorrências registradas no Paraná atingem o índice de 2,8% em relação ao mesmo número populacional.
O detalhe do levantamento inédito, feito pelo órgão da ONU que trata da violência no Estado de São Paulo, revela que gaúchos, paranaenses e brasilienses são responsáveis pela compra da maior quantidade de armas de fogo no País. A conclusão do estudo é de que as armas podem servir para induzir a prática do suicídio. No contexto mundial, o Brasil ocupa o primeiro lugar do ranking de países que mais registram suicídios cometidos com armas de fogo seguido dos Estados Unidos.
Para o psiquiatra Gláucio Luiz Bachmann Alves, o uso da arma de fogo apenas ajuda o suicida. ‘‘O que existe é a facilidade a um meio para se suicidar. Mas o impulso, a motivação ao suicídio já existe. Se não fosse o revólver seria outra coisa’’, compara. Alves acredita que o aumento das estatísticas de pessoas que tiram a própria vida não está ligada ao fato do incremento do comércio de armas.
‘‘A principal fonte de stress e depressão é a desintegração dos valores morais da sociedade’’, diz o psiquiatra ao explicar os reais agentes motivadores do suicídio. O materialismo, segundo Alves, já ocupou o lugar de virtudes como honestidade, lealdade e amizade. Através de uma mídia puramente mercantilista, ele considera que os valore humanos estão sendo desprezados. ‘‘Se você não tem uma base sólida de valores, o resultado mais tarde será o desespero’’, comenta.
Mais de 50% dos pacientes que Gláucio Alves atende em seu consultório, em Curitiba, já pensaram em se suicidar. Isso acontece porque para o psiquiatra a sociedade não está interessada em rever sua atual escala de valores. O advogado Wilson Brustolin, um dos coordenadores do Centro de Valorização da Vida (CVV), acha que o ‘‘conforto’’ gerado por uma cidade com qualidade de vida, como Curitiba, pode induzir uma pessoa a praticar o suicídio. As pessoas vão se isolando e elas acabam não descarregando aquilo que as perturba’’, observa Brustolin. O segundo lugar do Paraná deixou o advogado surpreso. ‘‘São Paulo e Rio de Janeiro são Estados mais populosos’’, diz. O mesmo pensamento é o do titular da Delegacia de Armas e Munições, Osmar Tadeu Cardoso. Segundo o delegado, o envolvimento de uma arma não faz diferença quando a pessoa tem tendências suicidas. ‘‘Quando se tem inclinação ao suicídio, as pessoas se matam de qualquer jeito’’, afirma.

mockup