Primeiro de dezembro de 1974. Num tranquilo final de noite de domingo, oito homens, chefiados pelo major do Exército brasileiro Sebastião Curió sequestram, quase que simultaneamente e em pontos diferentes de Foz do Iguaçu, três paraguaios e um argentino. Todos eram opositores do regime ditatorial paraguaio comandado a mão-de-ferro pelo general Alfredo Stroessner e estavam exilados na cidade paranaense.
Eles são levados, de carro, para um lugar desconhecido. A viagem dura mais de 30 horas. Anos depois, o local é identificado como uma base de operações do Exército brasileiro, em Formosa (GO), município perto de Brasília. Essa estrutura teria sido usada durante o regime militar para a detenção e tortura de militantes de esquerda.
Alejandro Stumpfs, Rodolfo Mongelos, Aníbal Abbate Soley e César Cabral foram sequestrados entre as 23 horas do dia 1º de dezembro e a 1 hora do dia 2. Os três primeiros eram empresários em Foz do Iguaçu. Cabral – argentino, filho de exilados paraguaios e com militância de esquerda em seu país natal – era empregado de Stumpfs. Todos tinham boas relações na cidade.
Os três paraguaios eram militantes do Movimento Popular Colorado (Mopoco), criado nos anos 60 por opositores de Stroessner no exílio. Rebeldes e ditador pertenciam ao mesmo partido, o Colorado. As principais células do Mopoco atuavam principalmente na Argentina, mas tinham ramificações no Brasil. Em levantamento produzido pelo Serviço de Investigação do Paraguai (a organização de inteligência da ditadura), Stumpfs, Mongelos e Soley foram apontados como mentores de um plano armado pelo Mopoco para matar Stroessner.
O pedido de Stroessner para que o Brasil prendesse e entregasse os quatro opositores foi feito em 30 de novembro, seis dias depois da prisão, em Assunção, de quatro ativistas do Mopoco. Com eles, o serviço de inteligência do governo divulgou ter encontrado documentos que comprovariam a existência do suposto plano e a ligação dos exilados em Foz do Iguaçu com ele.
De acordo com esses supostos documentos, o plano era eliminar o ditador em atentado a bomba. Além do planejamento do atentado, os empresários da fronteira foram acusados pelo serviço de inteligência de estar financiando a execução do plano. Eles negam as duas acusações. Mas confirmam que o projeto do atentado realmente existiu. Só não foi traçado na fronteira Brasil-Paraguai, e sim na Argentina.
‘‘O Paraguai estava havia 20 anos sob uma ditadura insuportável. Nossa luta (para derrubar Stroessner) era legítima, ante a violência e o terrorismo de Estado. Estávamos dispostos a tudo, inclusive à resistência armada, já que vivíamos uma guerra desproporcional’’, afirmou Mongelos à Folha, hoje com 75 anos e vivendo em Curitiba.
‘‘Mas nós quatro não fomos mentores do plano para matar Stroessner e nem o financiamos. Agíamos como políticos, não financiadores. Como eu, sendo dono de panificadora, poderia financiar um atentado?’’, pergunta Mongelos. Para ele, um atentado terrorista, naquele momento, seria um ‘‘ato político revolucionário e não criminoso’’.
Depois de permanecer 24 dias detidos no aparelho do Exército em Goiás, os três empresários paraguaios foram libertados. Antes disso, foram levados à sede da Polícia Federal, em Brasília, onde foram obrigados a assinar uma declaração em que afirmavam ter sido sequestrados por guerrilheiros e resgatados pelo Exército. Outra exigência para a libertação do grupo foi de que, por um prazo de dois anos, eles não pissassem em uma faixa de 60 quilômetros da fronteira com o Paraguai.
César Cabral, o quarto integrante do grupo, foi libertado antes disso, após uma semana de prisão. Os militares brasileiros teriam descartado as suspeitas de sua participação no suposto atentado a bomba. Cabral já havia integrado o grupo guerrilheiro argentino Exército Popular Revolucionário (ERP) e o MR-8 brasileiro.
O major Sebastião Curió, comandante do sequestro do grupo, acabou expulso do Exército anos depois. Enriqueceu e tornou-se nacionalmente conhecido no garimpo de ouro em Serra Pelada, no Pará. Naquele Estado, elegeu-se deputado federal e chegou a dar nome a uma cidade – Curionópolis.

mockup