Os cargos de chefias dos Núcleos Regionais de Ensino (NRE) no Paraná são usados para atender aos interesses de políticos de aliados do governo, reconhece a secretária de Educação do Estado, Alcyone Saliba, em uma mensagem enviada pela Internet no início do ano à ex-chefe de Londrina, Maria Genoveva Belucci. A Folha obteve cópia do documento no qual a secretária responde sobre a intenção de Maria Genoveva de colocar seu posto à disposição. ‘‘O seu cargo é uma designação do deputado que tem o ‘mando da região’, no jargão político. Como são todos os cargos de chefes de NRE’’, afirmou Alcyone Saliba no e-mail.
Maria Genoveva deixou a chefia do NRE em fevereiro deste ano, após permanecer cinco anos no cargo. Ele teria sido informada do afastamento por telefone, pelo deputado estadual Antônio Carlos Belinati (PSL). O afastamento ocorreu após a conturbada visita do governador Jaime Lerner (PFL) a Londrina, onde inauguraria uma obra de reforma no Colégio Marcelino Champagnat - um dos maiores da cidade. A solenidade foi cancelada por causa de protestos de professores. No lugar de Maria Genoveva, assumiu a professora Sandra Regina Amaral, indicada pelo deputado.
A manipulação política nas chefias é criticada pelo presidente da APP-Sindicato de Londrina, Luís Martins de Lima. A metodologia de escolha, na opinião do sindicalista, tira a capacidade dos núcleos de trabalhar em defesa da educação pois são obrigados a cumprir as determinações do governo. ‘‘Não sabemos quais compromissos são firmados por trás destas indicações’’, alerta. Martins comenta que as chefias são trocadas de acordo com o interesse dos ‘‘donos do cargo’’. Isso, para ele, interrompe a continuidade de trabalhos já iniciados.
A atual chefe do núcleo em Londrina, Sandra Amaral, confirma que o cargo é político. Mas a escolha, segundo ela, obedece a critérios e o principal deles é a formação da pessoa indicada. Sandra não vê prejuízos para o trabalho do órgão. ‘‘O cargo está aliado à habilitação da pessoa’’ - argumenta.
Para o presidente da APP-Sindicato, o melhor seria que os chefes de núcleos fossem escolhidos através de uma eleição com a participação da comunidade escolar. Um dos requisitos para o candidato seria um histórico de contribuição ao setor, além de integrar a carreira do magistério. A sugestão é apoiada pela ex-chefe, Maria Genoveva Belucci. Apesar de admitir que foi convidada para o cargo pelo ex-prefeito Antônio Belinati, considera as indicações um retrocesso ao processo democrático do País. ‘‘Não concordo com a ingerência política na educação.’’
No período em que esteve à frente do núcleo, Maria Genoveva garante que tinha liberdade de ação e jamais foi cobrada pelo ex-prefeito, o que não ocorre - segundo ela - em outras regiões do Estado. Quanto às determinações passadas pela Secretaria, confirma que existem diretrizes e filosofias do governo. ‘‘O núcleo é um órgão subalterno.’’ Apesar disso, ela garante que questionou certas determinações. Uma delas foi contestar no final do ano passado o enxugamento das escolas exigido pelo Estado. A medida determinava o fechamento do período noturno. Londrina, de acordo com a professora, fez um trabalho com as direções de escolas e só foram fechadas aquelas onde não houve procura por matrículas.
Já a diretora da Escola Estadual José Carlos Pinotti, do Jardim dos Pássaros (zona norte da cidade), Maria Luiza Correa Bastos, apontada por alguns professores como uma pessoa de grande influência nas atuais decisões do Núcleo, discorda da participação da comunidade escolar no processo de seleção das chefias. ‘‘É preciso competência e consciência política para isso’’ - diz. Ela critica as eleições dos diretores de escolas, alegando que os votos têm a força de uma cesta básica. ‘‘O povo é massa de manobra. Enquanto houver populistas nos cargos públicos não vai haver mudanças no País.’’

mockup