Estado de calamidade em Cerro Azul
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quarta-feira, 01 de abril de 1998
James Alberti 
Albari RosaDramaCentro da cidade virou um grande lamaçal. A água inundou lojas, arrastou uma casa e destruiu pontes. O único hospital do município corre risco de fecharA imagem da aposentada Dica de Matos, 75 anos, traduz a tragédia que se abateu sobre Cerro Azul (Região Metropolitana de Curitiba). Basta uma simples saudação para que ela começe a chorar, apontando com olhar de desencanto a casa completamente tomada pela lama. A chuva que castigou a população na noite de segunda e madrugada de terça-feira fez transbordar o Rio Quebrada Funda, que corta a cidade e obrigou o prefeito Adjair Destel a decretar estado de calamidade pública no município.
Todo o centro de Cerro Azul virou um enorme lamaçal. A água inundou lojas, arrastou uma casa e pontes. O hospital corre risco de fechar. Vinte famílias precisam ser removidas pois as casas onde residem correm risco de desabar. A agricultora viúva Leoni Fites, 45 anos, e o filho estão desalojados. Toda a população da área urbana está sem água potável há dois dias porque as chuvas destruíram parte da rede da Sanepar que abastece a cidade.
Em janeiro e fevereiro passados, o prefeito já havia decretado estado de emergência, mesmo assim não recebeu um único centavo dos governos estadual e federal. Ontem Destel viajou a Curitiba para tentar obter recursos na Assembléia Legislativa e Defesa Civil.
O abandono e o desencanto aflingem os cerca de 17 mil habitantes do município. Para tomar banho, fazer comida e saciar a sede, a população está buscando água de uma fonte que brota num morro, somente em dias de chuva. Os prejuízos são incalculáveis.
O secretário de agricultura, Jorge de Suss, acha que são necessários R$ 600 mil para recuperar o centro da cidade, onde vivem cerca de 6 mil pessoas. O comerciante Adriano Cordeiro Nascimento, 24 anos, dono de uma loja de móveis, já está se preparando para negociar as dívidas com os credores. No comércio, ficar dois dias sem ganhar dinheiro, para quem não tem capital de giro, é muito difícil, disse, quase chorando. É desesperador. Tem hora que dá vontade de abandonar tudo.
A situação do Centro Infantil Tia Juraci, o único da cidade que atende crianças entre zero e seis anos é lastimável. A escola foi atingida na enchente de 16 de janeiro. Como daquela vez, agora foram destruídas mesas, cadeiras, material didático, computador, brinquedos e alimentos.
Ontem os moradores faziam a limpeza das casas, lojas e ruas. Algumas crianças brincavam na lama, como os irmãos Josias e Osmael Donibes, de 11 e oito anos. Os dois estudam na primeira série da Escola Municipal Fiorentina de Araújo, mas as aulas foram suspensas em todas as escolas.


