Olhares curiosos e silêncio. Essa era a reação dos moradores do Parque Bela Vista, bairro da periferia de Apucarana, onde aconteceu a tragédia da morte de três pessoas da mesma família na madrugada de quinta-feira. Ainda sem saber o que teria levado o bóia-fria Mauri Alves dos Santos, 38 anos, a matar a mulher, o filho de 12 anos e depois atear fogo ao próprio corpo e permanecer entre as chamas até morrer junto dos familiares, vizinhos de Mauri circulavam na manhã de ontem estarrecidos, observando em silêncio, a humilde casa vazia.
Mauri era um homem calmo. Vizinhos e familiares não cansam de repetir que o trabalhador rural não era de muita conversa e nunca tinha cometido nenhum ato violento contra ninguém, principalmente contra a mulher. Mas Mauri já tinha feito mal a ele mesmo; há seis meses ele teria tentado se matar, esfaqueando o próprio peito. Fátima de Freitas, irmã de Luzia de Freitas dos Santos, 36 anos - mulher de Mauri morta por ele com um golpe de foice no pescoço - disse que o cunhado era uma pessoa ''tranquila'', mas bebia muito e que as vezes tinha ''reações estranhas''. ''Ele bebia e ficava quieto, não falava com ninguém. Nunca bateu na minha irmã. Ela era uma pessoa muito calma e eles nunca discutiam'', disse.
Preocupada com a saúde do marido, Luzia já tinha internado Mauri duas vezes no Hospital Regional do Vale do Ivaí, em Jandaia do Sul, que trata pacientes com problemas psiquiátricos e alcoólatras. Naquele hospital, Mauri permaceneu por trinta dias no ano de 2001 e a última vez que recebeu o tratamento foi em maio do ano passado. Nas duas vezes, o tratamento foi para alcoolismo. ''Quando ele voltava do hospital, continuava a beber. Um médico daqui de Apucarana disse uma vez que ele tinha esquizofrenia e depressão, mas ele nunca tratou isso'', comentou.
Fátima disse também que a irmã era uma pessoa muito religiosa e que acreditava que o marido era perseguido por ''espíritos maus''. O próprio Mauri, segundo a irmã da vítima, dizia que não sabia ao certo o que sentia, mas que às vezes tinha vontade de matar. ''Minha irmã sempre ia na igreja. Ela falava que se sentia mal dentro de casa, acreditava que tinha alguma coisa ruim lá dentro. Quando ele tentou o suicídio, perguntei para o Mauri porque ele havia feito aquilo; ele falava que era uma pessoa má, que só fazia mal para a família e que às vezes sentia vontade de matar, sem saber explicar porque'', relatou Fátima, ainda muito abalada, ao lado da mãe, dona Clarice.
Ainda em estado de choque, a filha mais nova de Luzia, Natali, 14 anos, que conseguiu fugir do padrasto na hora do crime, permanece na casa da avó. Olian, 16, o filho que Mauri tentou matar e que sobreviveu aos ferimentos, ainda está internado no Hospital da Providência de Apucarana. Ele teve traumatismo crianiano e cortes no braço esquerdo. O neurologista Adalberto Rocha Lobo, que atendeu o adolescente, disse que ele passa bem. ''Ele está tranquilo, já conversa e permanece no hospital só para continuar com os medicamentos. Acredito que será liberado logo'', disse.
Os corpos de Mauri, Luzia e Rafael, 12 anos, o filho mais novo do casal, foram sepultados no final da tarde de quinta-feira no Cemitério Municipal Cristo Rei. Em sepulturas simples, com nomes escritos manualmente no cimento corrido, o local já teve a visita de diversos curiosos, segundo o coveiro José Machado. ''Tinha umas cem pessoas e poucos da família vieram'', observou. Ele também estava emocionado pela tragédia da família e garantiu que vai cuidar pessoalmente dos túmulos. Depois de três anos, a administração retira os restos mortais das gavetas e deposita numa cova pública. ''Prometi a mim mesmo que enquanto eu trabalhar nesse cemitério, ninguém vai mexer no corpo dela e da criança''.

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