Esporte tira crianças carentes da rua
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de junho de 1997
Lúcio Horta 
Londrina
Com menos de quatro meses em funcionamento em Londrina, o Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Dolly Jess Torresin - o Caic da zona sul - já tem apresentado ótimos resultados, a despeito das dificuldades que a escola enfrenta.
O setor esportivo é o que mais surpreende: vários alunos já participam de competições e alguns se destacam em algumas modalidades. O desempenho dentro da sala de aula também tem melhorado e a evasão escolar é muito pequena.
Ao todo, são 1.120 alunos que frequentam o Caic - divididos entre o berçário, creche, pré-escola, 5ª a 8ª série e alfabetização para adultos (supletivo). Com exceção deste último grupo, todos ficam na escola das 8 horas às 17h30, tendo, além das aulas, alimentação, esporte e atendimento de saúde. As turmas de supletivo funcionam à noite.
O diretor de esportes da escola, Júlio César Sales, explica que, antes do Caic, a melhor opção que as crianças da região tinham era ficar na rua, sobretudo as que moram no jardim União da Vitória (zona sul), bairro notoriamente muito pobre. Agora, elas dividem o tempo entre a sala de aula, as oficinas profissionais, oficinas culturais, e as quadras de vôlei, de futebol de salão, xadrez, atletismo e capoeira. De março para cá tivemos o apoio da própria comunidade, que confiaram as crianças para nós. E o resultado agora é o baixíssimo índice de evasão escolar, aponta Júlio Sales.
Sales destaca que as crianças que frequentam o Caic têm uma característica muito particular: são de famílias muito pobres, às vezes violentas, outras totalmente desestruturadas, que em geral não se importam se os filhos estão escola ou simplesmente passam o dia na rua. Estamos tirando os menores desse ambiente e mostrando outro caminho. E a resposta que as crianças têm dado é fantástica. Alguns professores achavam que fosse complicado trabalhar com essas crianças e agora perceberam que não é.
O diretor lembra que no setor esportivo o objetivo é educar pelo esporte e não para o esporte, ou seja, não há interesse em formar grandes atletas mas homens e mulheres em condições de integrar a sociedade. Para isso, ele diz contar com uma ótima equipe de profissionais. Se eu continuar com a mesma equipe por quatro anos, por exemplo, tenho certeza que essas crianças vão sair daqui com educação de primeiro mundo, acredita o diretor.
Mas os resultados esportivos já trazem surpresas bastante agradáveis. A seleção londrinense de atletismo, nas categorias infantil e mirim, já conta com 18 atletas do Caic da zona sul. Nos dias 28 e 29 eles estarão em Curitiba para um campeonato estudantil. A perspectiva, segundo o técnico Marcos Bueno (também professor da escola), é que não façam feio.
Eles não vêem a hora de chegar a competição. Acredito que agora já venham algumas medalhinhas, o que significa um ótimo resultado, diz Bueno. Ele acredita que, com a continuidade do trabalho no Caic, daqui a três ou quatro anos serão atletas em condições de competir em jogos abertos e campeonatos brasileiros. Pelas marcas que eu vi, tive a certeza de que daqui sairão grandes atletas, diz. Na maior parte, os alunos correm descalços, porque não têm dinheiro para comprar sapatilha.
Alguns garotos e garotas do Caic também estão surpreendendo no xadrez. Geize Ruiz Santiago, 14 anos, há dois meses nem conhecia as regras e as peças do jogo. Hoje não só conhece como já tem apresentado bons resultados em competições. Ela se classificou nos Jogos Escolares Paranaenses, que ocorreram este mês em Jardim Alegre, e vai disputar as finais em setembro, em Arapongas. Isso além de ter uma vaga no seletivo dos Jogos da Juventude, que ocorre em agosto em Cascavel. Está sendo muito legal, diz Geize. Quero continuar jogando, trabalhar bastante, para melhorar ainda mais os resultados.


