Cristine Pieske e
Edmundo Inagaki

Arquivo FolhaCuidadoPoucos e ousados, como Valdemar Niclevicz, conseguem ultrapassar as difíceis barreiras de uma escalada na neve, como a do monte EverestO acidente que vitimou na última terça-feira os alpinistas brasileiros Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos, que tentavam escalar a face sul do monte Aconcágua, na Argentina, faz parte do jogo dos esportes ditos ‘‘radicais’’.
O risco, mesmo que calculado, é parte indissociável dessas modalidades, que sob o rótulo ‘‘radical’’ podem variar do alpinismo ao vôo livre, testando os limites do homem do início ao fim.
Apesar dos pesares, esses viciados em adrenalina, caçadores de emoção e aventureiros da terra, água e ar se orgulham de fazer parte de um seleto grupo, que ama viver perigosamente.
A tragédia com os alpinistas brasileiros aconteceu no quarto dia de escalada. Por volta das 20 horas, enquanto os paranaenses Dálio Zippin Neto e Ronaldo Franzen Júnior, que também faziam parte da expedição, aguardavam no acampamento-base, Catão, Oliveira e Leonardos foram surpreendidos por uma avalanche quando estavam a 600 metros do ponto final da escalada. Catão e Oliveira foram soterrados pela neve e tiveram morte instantânea. Leonardos, com as duas pernas fraturadas, ficou preso à corda de segurança. Pelo rádio, ele comunicou o acidente a Zippin e Franzen, que acionaram o salvamento.
Os acidentes envolvendo alpinistas e outros esportistas ousados costumam fazer mais vítimas do que se imagina. No Paraná, o Pico do Marumbi - destino certo da maioria dos montanhistas - registra em média um acidente a cada fim de semana. As ocorrências, que vão desde torções até a escolha de caminhos errados, terminaram no ano passado com a morte de um estudante. Perdido, ele tentou achar o caminho de volta durante a noite e caiu de uma altura de 40 metros.
‘‘O maior problema é o excesso de confiança e a imprudência’’, diz o montanhista Nélson Pudles, membro da comissão técnica do Corpo de Socorro e Montanha (Cosmo). Para ele, muitas pessoas apostam demais na eficiência dos equipamentos, acreditando que estão prontas para vencer seus limites. ‘‘As pessoas acham que não precisam de técnica nem de orientação profissional, preferindo arriscar a vida em nome de uma aventura’’, afirma.
Para o montanhista, todos os esportes radicais envolvem riscos, mas que devem ser calculados ao máximo para evitar acidentes. ‘‘Esta é a diferença entre um atleta profissional e um esportista de fim de semana, que imagina que as coisas nunca vão dar errado’’, afirma.
Das cerca de 300 pessoas que escalam o Pico do Marumbi durante os finais de semana, Pudles afirma que apenas 10% delas devem ter o preparo correto para praticar o montanhismo. O restante é formado por adolescentes que, incentivados por amigos, fazem as escaladas de forma amadora e arriscada. Muitas vezes, segundo Pudles, até mesmo os equipamentos - botas, cordas e mosquetões - são impróprios para o uso nas escaladas. ‘‘Os jovens se empolgam com imagens de fotos e filmes e acreditam que podem fazer o mesmo’’, diz.

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