As duas asas funcionam como um eficiente motor. Não rateiam e garantem deslocamento suave e panorâmico. O grupo é unido, é coeso. Não há discussão sobre a melhor rota, nem um mapa para paradas estratégicas.
Quando lá no alto, o degradê das lavouras vai se transformando em cidade rarefeita e depois em selva de pedra, as garças continuam seguindo apenas seu instinto mas também passam a fazer de sua longa viagem desde o sul um espetáculo dentro do habitat humano.
Desde que este inverno seco e morno conquistou a simpatia nas férias escolares, desde que as caminhadas de julho deixaram de ser penosas e desde que as crianças deixaram o agasalho na gaveta, as condições ficaram perfeitas para apreciar o desembarque das garças em um ipê localizado em uma ilhota do Lago Igapó 3.
A visão a partir da Avenida Castelo Branco e das sacadas do Jardim Universitário pode não garantir o acompanhamento de todo o rito das aves. Então, os londrinenses estão se deslocando até a margem do lago e deixando escapar interjeições de espanto e de fascinação. Eles estacionam a bicicleta, tiram o fone do walkman e não arrendam pé nos últimos 20 minutos da tarde. Alguns registram a imagem em máquinas fotográficas, outros em filmadoras.
Às 17h43, o bando começa a ornamentar o vale. São centenas delas, que voam errantes até se acomodaremm na ilhota. Na disputa pelos galhos, sobra algazarra. Competição para descansar depois de um dia inteiro de esforço. Quando o ipê parece tomado de folhas brancas vivas, eis que um escapamento mal regulado produz um ruído que ecoa pelo vale. E as garças voltam a errar no espaço, se agitarem, até reconhecer no mais frágil galho um bom lugar para pernoitar. E a escuridão vai sorvendo o barulho, até que o dia acaba, encerrando o espetáculo.
Hoje, outro bando chegará. Os londrinenses, sem pagar nada, vão se divertir, agradecer a natureza, esta que nos reservou um inverno em que não é preciso neve para mostrar a beleza do branco.

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