Esperança, a marca de um bairro
Nome sugestivo e possibilidade da casa própria fazem do Jardim Nova Esperança um local de gente disposta a vencer dificuldades
Fotos Paulo WolfgangAnúncio impotenteA caixa dágua cilíndrica e branca, feito um grande monolito, aponta para o céu e anuncia a entrada do Jardim Nova Esperança, na zona sul de Londrina, ainda com poucas casas espalhadas pelo loteamentoJoana e o pai Alvelino Alves (à esq.), da primeira família a entrar no bairro; Edna Maria fez mudança na Sexta-Feira SantaWalter Ogama
O bairro é novo e seu nome sugestivo: Jardim Nova Esperança! Com menos de meio ano de idade, acolhe pessoas simples que a custa de muita economia e sacrifícios se encheram de ânimo, renovaram suas esperanças e decidiram partir para a concretização de um sonho. Como anuncia a mensagem publicitária dos vendedores do loteamento, estampada numa placa fincada logo na entrada: Plante aqui o sonho da casa própria.
Mais adiante, feito um grande monolito, a caixa dágua cilíndrica e branca aponta para o céu. A estrutura de concreto parece avisar que o lugar terá futuro. Levantada na beira do asfalto, bem onde a via principal do bairro faz uma curva, ela é ainda um corpo estranho naquela imensidão de verde das plantas e do roxo da terra molhada.
É ali, muito abaixo, descendo como se estivesse sendo empurrado, que começa o loteamento. O Jardim Nova Esperança fica encravado no meio de uma bacia formada pelas diferenças da topografia do lugar. Localizado na zona sul de Londrina, a pouco menos de um quilômetro dos jardins União da Vitória, o bairro retrata sossego, traz nostalgia.
Lembra um distrito rural com suas pequenas construções e cercada de lavouras e mata. Ao sul, ao norte, a leste e a oeste. Ali de baixo, nem as comunidades mais próximas podem ser vistas. E desce-se mais, por ruas de asfalto novo, até o último quarteirão, a última residência já erguida e habitada, apesar de ainda inacabada. Repartem a moradia o casal Sonia da Silva, 29 anos, e Ilson Franco de Oliveira, 30 anos, pais de quatro filhos menores, o mais velho com 10 anos.
Ela desempregada há um mês, ele procurando um emprego há sete meses. Ela aproveita as folgas forçadas e lida com os afazeres da casa, que ainda precisa de reboco, piso, pintura e janelas: no lugar delas, pedaços de carpete protegem os moradores do frio e da chuva e escondem as intimidades da família. Ele campeia e vez ou outra tem a sorte de encontrar um bico, uma diária suficiente para comprar uma mistura hoje, completar o arroz e o feijão amanhã, conforme traduz ela:
á- A gente compra um pouquinho ali, outro pouquinho aqui e vai levando...
Pelo terreno de 307 metros quadrados o casal paga R$ 120,00 por mês. Duas prestações estão atrasadas por culpa do desemprego de ambos. Há três meses, a família decidiu fugir do aluguel de R$ 150,00 por uma casa nas proximidades da Prefeitura de Londrina.
A construção da casa tem custado muitos esforços do casal. No começo da obra nem água e luz chegavam ao loteamento. Água se conseguia numa mina, descendo pelo menos 500 metros além dos últimos terrenos e cortando trecho de mata rasteira.
Agora, com o casal sem dinheiro, a casa espera por janelas, piso, reboco e pintura. Mas é uma moradia. Sonia e Ilson esperam por empregos. As crianças aguardam a chegada do ônibus, que ainda não desce até o loteamento. A família tem ainda a expectativa da visita do caminhão de coleta de lixo e de telefones públicos.
- Meu marido perdeu um emprego estes dias por falta de telefone por perto. Quando ele recebeu o recado que a firma tinha telefonado já era tarde.
Joana, 23 anos, uma das filhas do casal Olga, 70 anos, e Alvelino Alves, 73 anos, compartilha da queixa. O telefone público mais próximo fica na entrada dos jardins União da Vitória. Uma emergência vai exigir uma caminhada ladeira acima de quase um quilômetro.
É um trajeto que Joana tem feito rotineiramente para levar até a região do União da Vitória lixo que ela recicla, acondiciona em sacos plásticos diferenciados e deposita no local onde o caminhão faz a coleta.
- Faço isso para não deixar o bairro sujo. Mas nem todos os moradores têm essa preocupação.
A família Alves foi a primeira a entrar no loteamento. No dia 6 de fevereiro, antes mesmo das construções serem liberadas, o casal e cinco filhos começaram a levantar uma pequena casa de madeira. Os Alves moravam em um sítio e tiveram que desocupar a casa a pedido do proprietário rural. Se não improvisassem a moradia no Jardim Nova Esperança, teriam que pagar aluguel.
O terreno, localizado no alto do loteamento, tem 280 metros quadrados e custa para a família R$ 165,00 por mês. Os cinco filhos estão procurando emprego, seo Alvelino está aposentado e dona Olga, vítima de um derrame, passa os dias acamada.
Mas a experiência de vida na zona rural faz os Alves conservarem uma característica positiva: o espírito de união da família, que enfrenta as adversidades junta. Da porta da casinha de madeira, por onde escapa o cheiro de café torrado e moído em casa, Joana mostra o quintal e detalha o projeto em andamento: uma nova casa, de alvenaria.
A nova moradia terá que ser construído em duas etapas. Quando a primeira estiver pronta, a família se muda para ela. Só então a casa de madeira será derrubada, para no local ser levantada a segunda parte da habitação. Enquanto o pedreiro ajeita o terreno para a construção, Joana observa o horizonte e num suspiro deixa escapar o seu sentimento de esperança:
- Espero que o bairro melhore bastante...
A esperança não é só dela. Edna Maria Biondi dos Santos, 28 anos, duas filhas, ocupa com a família uma das casas mais precárias do bairro. Parte da casinha de madeira ainda é forrada com lona plástica, mas o quintal também mostra sintoma de moradia em construção: areia, pedras e tijolos são os indicadores.
Edna chegou no Jardim Nova Esperança na Sexta-feira da Paixão, fugindo do aluguel de R$ 150,00 que pagava em uma casa no Parque das Indústrias. Pelo terreno de 200 metros quadrados, ela e o companheiro pagam R$ 150,00.
De ruim com a mudança, Edna tem na ponta da lista a necessidade que teve de trocar de setor no emprego em um restaurante de Londrina. Ela era saladeira e precisava cumprir horário até a saída do último freguês, na maioria das vezes já na madrugada. Sem ônibus para voltar para casa, Edna passou a ser faxineira, com trabalho durante o dia mas salário menor.
A caminhada de ida e volta do loteamento até o ponto de ônibus dos jardins União da Vitória, aliás, já resultaram na perda de 15 quilos para Edna. Ela se diz cansada, confessa que apesar de nova já enfrentou muitas dificuldades na vida, mas como toda pessoa que encontra na esperança forças para continuar a luta, ri e justifica:
- O meu marido sempre me diz: estou muito feliz aqui porque estamos morando no que é nosso.
Histórias comuns e expectativas parecidas. No dia 6 de fevereiro eram apenas os Alves. Há um mês eram cerca de 15 famílias. Anteontem 36, ontem 40, amanhã não se sabe quantas. As obras, todas modestas, pipocam de um lado a outro. Pelo menos duas das construções são comerciais, quem será o primeiro comerciante do bairro?
Por enquanto, os quintais e as ruas sem movimento são as áreas de lazer das crianças, que esperam pela chegada do ônibus, do caminhão do lixeiro, da escola, do posto de saúde e do telefone público. Os pais, ao lado das moradias, aguardam: por emprego, por dinheiro para comprar mais um milheiro de tijolo, por paz, segurança e um pouco de conforto. Tudo sem perder as esperanças.
RAIO X
Jardim Nova Esperança
Localização: zona sul, a cerca de 1 km dos jardins União da Vitória
Ponto de referência: Caic da zona sul de Londrina
Problemas: falta de telefone público, coleta de lixo, circulação de ônibus, escola e unidade de saúde





