Sem compreender os critérios que definem a prioridade dos atendimentos no Pronto-Socorro (PS) do Hospital Universitário (HU), pacientes que aguardaram por uma vaga durante horas e sob intensa dor externaram revolta, ontem. Na verdade, foi a repetição de uma cena que acontece toda semana no maior hospital da região.
''Chegamos por volta das 8 horas e não saímos para almoçar com medo de perder a vez. Meu pai já não aguenta nem tossir'', desabafou a doméstica Renilda da Silva, 36, que ainda não tinha comido nada quando conversou com a FOLHA, às 15 horas. ''Por mim, eu ia embora. Ela que insiste'', comentou o pai, Aparecido Lourenço, 62, abatido depois de uma noite de mal-estar.
Com as pernas e o rosto bastante inchados, a aposentada Cleuza Rodrigues de Oliveira, 56, que é diabética, amargava a ardência pelo corpo e a preocupação de ver o problema aumentar a cada hora. ''Estou com medo que ela esteja com alguma doença contagiosa, porque minhas crianças também estão se coçando. Ninguém vem examiná-la, e se isso pega nos outros pacientes?'', alarmou-se a filha.
Segundo a assessoria de imprensa do HU, na tarde de ontem o PS estava atendendo 19 pessoas a mais que sua capacidade - oficialmente, são 38 leitos. No momento em que a reportagem visitava a unidade, uma equipe do Samu trouxe a 20 paciente, uma idosa acomodada em uma das salas de exame. Com o atendimento temporariamente suspenso, ela só conseguiu uma vaga porque seu caso era grave.
Além das salas originalmente destinadas a consultas, os enfermos foram colocados em macas e cadeiras pelos corredores. ''Não vejo a hora de ir embora, estou tão cansada!'', confessou Dalva Barbosa, 63, que fraturou o braço e passou a madrugada sentada, sem conseguir dormir. Vítima de uma pancada no olho, o agricultor Jacir de Souza, 42, de São Jerônimo da Serra, está desde terça-feira indo e vindo do PS. ''A gente acaba até fazendo amizade'', disse, referindo-se aos vizinhos de cadeira.
Apesar da superlotação, o hospital calculou, com base no fluxo do dia, que até as 19 horas de ontem o PS seria reaberto. Mas o superintendente do HU, Francisco Eugênio de Souza, avisou: ''Isso é um problema frequente. Ocorre quase que semanalmente.''
A boa notícia é que dentro de dois meses o PS passará por reformas e deverá oferecer atendimento mais digno aos pacientes. A má é que, em termos de quantidade de leitos, as obras irão acrescentar pouco - o número ainda não é certo. Outra má notícia: durante um ano, tempo previsto para a reforma, o PS será transferido para outro prédio e terá ''significativa redução das vagas'', de acordo com Souza. Só o PS adulto vai passar de 26 para 10 leitos.
''Estamos avisando as autoridades desde já, para que procurem alternativas. Vamos quebrar os ovos, para poder fazer a omelete'', metaforizou. ''Agora, a solução para a superlotação é ampliar o número de leitos. Já temos esse projeto, mas a primeiro serão as UTIs, depois o PS'', ponderou, estimando um prazo de ''um ou dois anos''.

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