Ney de SouzaBrasiguaiaAparecida Ferreira e seus três filhos: ‘Ficamos sem comer e sem dormir para conseguir uma consulta’Filas que se formam durante a noite inteira nos postos de saúde são a imagem do sistema de saúde pública em Foz do Iguaçu, um ano depois do início da cobrança da Contribuição Provisória Sobre Movimentações Financeiras (CPMF), imposto criado para melhorar o sistema em todo o País.
As filas em alguns postos começam a se formar por volta das 21 horas. No posto de saúde do bairro Morumbi 1 (zona leste da cidade), por exemplo, é preciso passar a noite na fila para marcar consulta. Os usuários do sistema chegam a levar lanches, colchonetes e cobertores para dormir na calçada enquanto aguardam a abertura do posto, às 7 horas.
O secretário municipal de Saúde, Sadi Buzanelo, disse que, apesar de o dinheiro proveniente da CPMF ir para o Sistema Único de Saúde (SUS), Foz do Iguaçu não recebeu nenhum recurso a mais desde que o tributo passou a ser destinado à saúde.
‘‘Para Foz não houve aumento. Continuamos recebendo a mesma verba que recebíamos antes da CPMF, cerca de R$ 450 mil mensais. Mas não tenho dúvidas que o dinheiro da CPMF está sendo aplicado na Saúde. Sabemos que aqui em Foz não está tudo maravilhoso. Mas as dificuldades que temos são as mesmas dos outros municípios do mesmo porte’’, afirmou.
O secretário afirmou também que a Prefeitura está tentando, junto ao Ministério da Saúde, triplicar o valor recebido do SUS. ‘‘O ideal seria receber três vezes mais, porque também atendemos os brasiguaios’’, disse Buzanelo.
A dona-de-casa Aparecida Ferreira, de 45 anos, mora no Paraguai. Ela e a família vêm fazer consultas médicas em Foz do Iguaçu. Na última quinta-feira, ela trouxe os três filhos para consultas médicas e odontológicas. ‘‘A gente tem que vir aqui porque no Paraguai só podemos usar o pronto-socorro. A dificuldade é muito grande. Pegamos ônibus, ficamos sem comer e sem dormir para conseguir uma consulta.’’
A manicure Marli da Silva, de 17 anos, chegou às 23 horas de quarta-feira ao posto do bairro Morumbi 1 para marcar consulta com um ginecologista. ‘‘Só tem cinco fichas para esse tipo de médico, por isso a gente precisa passar a noite aqui. Além disso, quando eu precisei de uma ecografia, não consegui fazer pelo SUS e tive que fazer em clínica particular.’’
O mecânico Ivo de Paula Pessoa, de 43 anos, relatou que várias vezes chegou às 4 horas ao posto. Mesmo assim, em algumas das tentativas, passou a madrugada na fila, mas não conseguir marcar consulta. ‘‘Quem chegar depois das 4 da madrugada não consegue consulta. O sistema de saúde aqui nunca esteve tão ruim como agora.’’
O pintor Gilberto Almeida, de 30 anos, contou que chegou a passar o dia inteiro no posto para conseguir ser atendido às 23 horas. ‘‘Quando amanheceu, me mandaram ficar no posto, porque eu seria atendido de manhã. Depois, disseram para eu esperar que o médico da tarde ia me atender. Mais tarde, me avisaram que o médico do plantão noturno é que ia me atender. Acabei sendo atendido às 11 da noite. Essa é a melhor prova que tudo vai de mal a pior.’’
Contrariando as evidências, o secretário de Saúde Sadi Buzanelo admitiu que existem filas nos postos, mas negou que as pessoas passem a noite nesses locais para conseguir uma consulta. ‘‘Fila existe. Mas dizer que as pessoas passam a noite na fila já é exagero. Imagens de pessoas na fila podem ser fabricadas pela televisão. Além disso, ninguém precisa ir de madrugada para conseguir marcar uma consulta. As consultas são marcadas a qualquer hora. Essas filas são fruto da desinformação da população.’’
Segundo uma auxiliar de enfermagem de um dos postos visitados pela Folha, que não quis ser identificada, existe uma determinação da Secretaria Municipal de Saúde para que não sejam marcadas consultas com antecedência. ‘‘Eles alegam que, se marcar antes, chega na hora da consulta e 50% das pessoas não comparecem ao posto.’’
Ela também disse que médicos e dentistas são constantemente desligados dos postos, e não há reposição de pessoal.‘‘Mas não é só médico e dentista que faltam. Também faltam remédios e agilidade na realização de exames. Sem contar as brigas internas, que prejudicam o atendimento.’’

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