No dia 5 de março de 2007, como raras vezes aconteceu na história de Londrina, a libertação de um preso conseguiu comover toda a cidade. Era o entregador Alexandre de Oliveira Pontes, 21 anos, jovem surdo e mudo acusado de tentar roubar uma loja de conveniência. Um mês e nove dias depois, entretanto, Alexandre ainda não é realmente livre.
Como conquistou apenas a liberdade provisória, ele está submetido a regras semelhantes às de quem vive sob condicional. Não pode ficar fora de casa após às 22 horas, tem restrições quanto a frequentar bares e está proibido de deixar a cidade, ainda que seja apenas a passeio. ''Outro dia ele foi a um encontro da igreja e chegou tremendo em casa, porque tinha passado um pouco das dez da noite. Ele não sai mais sozinho, porque tem medo de que aquele pesadelo se repita'', diz a irmã, Ivani Oliveira Pontes.
Alexandre foi preso no dia 20 de fevereiro, após ser denunciado pelo proprietário de uma loja de conveniência, localizada na Área Central Londrina. Segundo a versão do comerciante, ele teria levantado a camisa para exibir um objeto semelhante a uma arma na cintura e feito um gesto pedindo dinheiro. A suposta tentativa de assalto não foi consumada, mas o jovem foi detido por policiais civis minutos depois, dentro de um ônibus.
A família sempre sustentou que tudo não passou de um mal-entendido, do qual o entregador não pôde se defender porque não fala, nem ouve desde que nasceu. O gesto feito à caixa da loja teria sido apenas para indagar o preço de um achocolatado. E o tal objeto na cintura, como a própria polícia constatou, era nada mais que uma carteira.
As alegações não impediram que Alexandre passasse 14 dias encarcerado no 2º Distrito Policial (DP), o mais superlotado da cidade, sem ver a família e, segundo ele, sofrendo agressões de outros presos. Com base no inquérito policial, o Ministério Público (MP) ofereceu denúncia contra o rapaz, que foi acatada pela Justiça.
Atualmente, ele passa por tratamento psicólogico. Segundo a irmã, o psicólogo se ofereceu para assumir seu caso porque é um dos poucos no município que tem conhecimento de libras, a língua de sinais. ''Ele frequenta as sessões uma vez por semana. Aos poucos está melhorando, já voltou a trabalhar, mas não vai conseguir superar o trauma enquanto não for considerado inocente'', afirma. O rapaz pensa em se mudar para Curitiba, onde tem familiares, mas está impedido enquanto responder à ação.
O processo está nas mãos da juíza Lídia Maejima, da 2Vara Criminal. A primeira audiência ainda não foi marcada. A preocupação do advogado de Alexandre, Reginaldo Martinelli, é que ações referentes a réus soltos costumam demorar anos para receber sentença. ''São necessárias pelo menos três audiências e ainda não ocorreu nenhuma. Estamos pedindo que a primeira seja marcada o mais rápido possível, afinal o Alexandre ainda não está levando uma vida normal'', atesta.
Ivani diz que pretende aguardar a sentença - a qual confia que será favorável a Alexandre - para só então entrar com processo pedindo indenização ao Estado. ''Queremos primeiro que fique provado que ele é inocente'', conclui. A reportagem tentou falar com a juíza Lídia, mas sua agenda estava lotada de audiências.

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