Nem a pobreza dos loteamentos populares afasta os especuladores. Na ocupação do conjunto Aquiles Stenghel (zona norte), o comerciante João Lopes Gonzales, que construiu uma casa num dos lotes divididos entre os sem-teto, admitiu à Folha ter ‘comprado’ mais um terreno no local. Ali é um loteamento irregular por ocupar uma área pública. Portanto, ninguém receberá documento de posse da terra, que é da Prefeitura de Londrina.
Gonzales pagou R$ 300,00 por um lote que ‘pertencia’ a um rapaz conhecido como Pitico e depois o trocou por um carro. ‘‘Comprei e paguei. Depois, ergui quatro paredes, pus piso, mas não tinha condições de continuar a casa. Então, troquei por um Chevette’’. Gonzales paga hoje R$ 250,00 de aluguel no Aquiles Stenghel para morar com a esposa num salão onde funciona também seu bar e mercearia.
O presidente da Federação das Associações dos Moradores de Favelas de Londrina, José Ricardo da Silva, reclama que a especulação é um problema sério e constante nas ocupações. ‘‘A Federação joga pesado com os especuladores. Desmancha os barracos que não estão ocupados e destina a área para quem precisa. Na invasão do Olímpico, por exemplo, a Federação tirou 20 famílias que já tinham casa. Os especuladores fincam três paus com uma lona em cima, mas não ocupam. Eles querem a posse do terreno para vender depois.’’
Segundo José Ricardo, a prefeitura e a Cohab têm a mesma preocupação que a Federação: dar garantia a quem precisa de moradia. ‘‘Mas não temos apoio da lei para defender as pessoas que estão dentro das ocupações. O especulador, às vezes de revólver na mão, põe uma família para correr e toma seu barraco. Não há segurança nos loteamentos. Quando a gente procura uma autoridade, um delegado, eles dizem que não tem documento que prove de quem é o terreno.’’
O presidente da Cohab, Wilson Sella, afirma que é difícil conter a especulação nos loteamentos onde não há a divisão oficial dos lotes, justamente por falta da documentação. ‘‘Comprar lote em local irregular é como comprar bicicleta roubada’’.
Sella afirma que o índice de especulação é pequeno. ‘‘Cerca de 10% no momento da invasão.’’ Ele explica que a Cohab não tem como impedir essas compras e vendas de lotes irregulares. ‘‘Ninguém tem a posse. Só se a Cohab pedir na Justiça o despejo de todo mundo. Aí terão que sair todos, os que precisam e os especuladores.’’
(Carina Paccola)

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