Sewell Setzer, um adolescente britânico, tinha apenas 14 anos quando começou a conversar diariamente com uma inteligência artificial que imitava emoções humanas. À medida que o vínculo crescia, passou a acreditar que havia ali um relacionamento real, até que, dez meses depois, morreu, deixando a família diante da difícil pergunta de como uma ferramenta criada para conversar ocupou um espaço tão profundo em sua vida. Também, segundo informações do jornal The Guardian, no Reino Unido, outro jovem, Adam Raine de 16 anos, encontrou na IA um interlocutor constante: isolado e fragilizado, passou semanas desabafando com um chatbot até tirar a própria vida. Nos dois casos, famílias relatam que interações com sistemas “emocionais” agravaram fragilidades pré-existentes, criando uma dependência silenciosa, quase imperceptível.

Episódios como esses escancaram um alerta: tecnologias projetadas para simular afeto podem ultrapassar limites quando passam a substituir vínculos humanos , sobretudo entre jovens expostos à solidão, ansiedade e falta de acompanhamento adequado.

REFÚGIO EMOCIONAL

Com o avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial, cresce também o número de pessoas que recorrem a elas como espaço de acolhimento emocional. Em consultas rotineiras, profissionais de saúde mental têm ouvido relatos de pacientes que descrevem chatbots como “amigo”, “confidente” e até “namorado”.

O psiquiatra forense Paulo Kozima observa uma presença crescente da IA no cotidiano emocional de pessoas solitárias. “O problema não está no uso em si, mas na substituição das relações humanas por uma interação que, embora pareça responsiva, não supre a complexidade afetiva necessária para uma vida saudável. Algumas vezes ouvimos que o amigo ou o namorado é a inteligência artificial”, afirma.

O professor e doutor em engenharia elétrica, especialista em inteligência artificial natural, Ricardo Petri, reforça o alerta. “A IA reforça comportamentos. Para quem sofre questões emocionais, pode se tornar uma blindagem dentro de um mundo artificial”, explica. Ele reconhece o potencial da tecnologia em triagens e no apoio ao sistema de saúde, agilizando atendimentos e reduzindo filas, mas faz uma ressalva: “Não substitui acompanhamento profissional”.

TELA COMO 'ESCAPE'

A preocupação se estende também às crianças e adolescentes. Segundo profissionais da área, jovens fragilizados ou com pouco acompanhamento familiar podem encontrar na IA a única fonte de diálogo e esclarecimento de dúvidas, o que aumenta o risco de dependência emocional e isolamento.

Nesse cenário, a psicóloga e psicanalista, especialista em psicologia intercultural, Alexandra Rocha acredita que o aumento do tempo de tela é um alerta em si. “O excesso pode ser usado como válvula de escape ou fuga, e desencadear ansiedade, irritabilidade, dificuldades no sono e, em casos mais graves, comportamentos compulsivos. Aquela história de adolescentes que vão a um lugar sem sinal e ficam extremamente irritados pode indicar um comportamento de abstinência”, explica.

Ela reforça a importância do vínculo familiar desde cedo. “Tenho um filho de dezoito anos. Desde muito cedo, meu marido e eu compartilhamos interesses com ele, livros, filmes, conversas sobre política e sociedade. Isso cria elo, confiança e vínculo. Não dá para fazer isso só na adolescência, quando outras referências já ocupam esse espaço.”

As principais sociedades pediátricas recomendam que até 2 anos é preciso evitar telas, de 2 a 5 anos estabelecer o limite de até uma hora por dia, com supervisão e por fim, a partir de 6 anos, impor limites claros, equilíbrio com outras atividades e atenção ao conteúdo,"mais importante que a idade é o contexto. A tecnologia deve ser ferramenta, não substituta de convivência, afeto e brincadeira”, diz.

Petri vê a necessidade de atenção às fronteiras éticas no uso da IA. “Nem sempre teremos clareza sobre os critérios de coleta de dados usados por essas ferramentas. Precisamos cuidado: muitas vezes não sabemos se informações foram obtidas com consentimento, de bases públicas ou privadas”, afirma.

As consequências do uso excessivo é que o indivíduo pode se afastar da realidade. “O algoritmo tende a não contrariar, busca validar o que o indivíduo propõe. Em casos de quebra da realidade, como delírios, a IA pode contribuir para o avanço de quadros psicóticos”, reforça Kozima. O psiquiatra explica que “o uso excessivo prejudica a plasticidade cerebral, que depende de experiências verdadeiras. Somos seres sociais; precisamos de gente, principalmente quando se trata da mente e de suas funções.”

Kozima relata que está cada vez mais comum os profissionais de saúde receberem pacientes que chegam ao consultório motivados por diagnósticos incorretos gerados por IA e “quando confrontados de que não apresentam o transtorno, afirmam ter buscado em bancos de dados da ferramenta.”

Rocha endossa e acrescenta que a imprecisão das recomendações feitas por IAs é um risco real. Ela aponta o aumento de autodiagnósticos incorretos, alimentados por buscas rápidas ou vídeos curtos em redes sociais. “Vemos pessoas se rotulando como narcisistas, borderline ou bipolares. São patologias complexas, impossíveis de definir por achismo. Um único atendimento também não fecha diagnóstico, é preciso acompanhamento”.

OLHO NOS SINAIS

Mudanças bruscas de humor, cansaço constante, queda no rendimento escolar ou profissional, alterações de sono e apetite, sensação de inutilidade, isolamento e perda de sentido na vida são sinais que devem acender um alerta.

Para quem convive com alguém que apresenta esses sintomas, a recomendação é simples: esteja atento, demonstre interesse, converse, ofereça ajuda. O pedido de socorro, muitas vezes, acontece em silêncio.

*supervisão de Patrícia Maria Alves (editora)

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