Há 32 anos morando entre Inglaterra e França, Alexandre Kalache não perdeu o jeito despojado e o bom papo do garoto de classe média que cresceu na praia de Copacabana, foi militante estudantil na ditadura e viajou pelo Nordeste durante a faculdade. Hoje, com dois filhos, uma neta e 61 anos, mas aparentando pelo menos dez a menos, ele continua fascinado pelo Brasil, não vive sem goiabada e farofa, e, citando Oscar Wilde, diz que resiste a tudo, menos às tentações.
Kalache é PhD em epidemiologia pela Universidade Oxford, foi fundador da Unidade de Epidemiologia do Envelhecimento da Universidade de Londres e criador do primeiro mestrado em Promoção da Saúde da Europa. Atualmente, é o responsável pelo Programa de Envelhecimento e Longevidade da Organização Mundial da Saúde (OMS), idealizando projetos baseados no envelhecimento ativo, com autonomia e independência. Informal e experiente em apresentações, domina a técnica de quebrar o gelo e aproximar interlocutores, como fez na sexta-feira a profissionais e usuários do Centro de Referência do Idoso de São Miguel Paulista, em São Paulo.
''O grande desafio do século 21 é o envelhecimento. E foi a grande conquista do século 20. Mas como podemos fazer para que essa grande conquista de um século não se torne o grande problema do outro?'', questionou, dando como resposta um puxão de orelha na platéia, dizendo que estava nas mãos também da iniciativa privada fazer parcerias com o poder público em prol de mudanças. Mas foi além e cutucou o Estado: ''Não se pode, por exemplo, culpar os idosos pelos problemas da Previdência. O errado é o sistema que permite que pessoas com 45 anos, em plena capacidade de trabalho, se aposentem e vivam mais 30 anos recebendo salário integral,'' diz. E complementa: ''O Brasil, por exemplo, vai dobrar sua população de idosos em 17 anos. A França fez isso em seis gerações'', afirma. Nesse ponto, retoma um alerta que fez ainda nos anos 80, quando começou a se especializar no assunto: ''Os países desenvolvidos ficaram ricos antes de envelhecerem, os que estão em desenvolvimento estão envelhecendo sem terem enriquecido.''
Nas aulas acadêmicas ou palestras para público leigo, ele vai soltando os números, como os divulgados esta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostraram que a expectativa de vida do brasileiro é de 71,9 anos. E que cresceu 61% o número de famílias onde os idosos são os grandes responsáveis pela renda.

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