Especialista alerta para contaminação
Os lençóis freáticos de Londrina podem estar sendo contaminados pelos cemitérios. Construídos sem planejamento de impacto ambiental, os cemitérios tradicionais favorecem o escoamento de água contaminada por microorganismos, diretamente para os lençóis de água subterrâneos, formados em profundidade relativamente pequena. Esses lençóis abastecem os poços, os ribeirões e os rios que, por sua vez, suprem as cidades de água potável. Somente em Londrina existem cinco cemitérios administrados pela Autarquia de Cemitérios e Serviços Funerários (Acesf).
O alerta é do professor doutor Valmir de França, especialista em ecologia de ambientes aquáticos e continentais da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Segundo o professor, que integra o Programa Hidrológico Internacional da Unesco, órgão das Nações Unidas, o escoamento de águas pluviais se dá de forma superficial, subsuperficial e profundo. Dependendo do tipo e da textura do solo, a água atinge o interior dos túmulos e se infiltra, chegando aos lençóis freáticos. Na infiltração acontece o intemperismo químico, em que a água conduz o material biológico até aos lençóis, explicou França. O planejamento, quando realizado, analisa o solo e a profundidade dos lençóis, que em muitos casos, afloram a poucos metros da terra. O solo ideal para reduzir o impacto ambiental é o impermeável, esclareceu o professor.
No Brasil, há uma legislação específica, criada em 1986 pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), ligado ao Ministério do Meio Ambiente. O Conama é responsável pelos estudos relacionados à construção de cemitérios e aterros sanitários. Como a maioria dos cemitérios foram criados antes da lei, não há informações precisas sobre possíveis contaminações. Sem um laudo não se pode afirmar nada, mas as possibilidades existem, ressaltou França. Conforme o professor, água contaminada é um importante vetor de várias doenças graves. A localização dos cemitérios junto à zona urbana também favorece a proliferação de insetos, como baratas e roedores. Esses insetos são transmissores e depositários de microorganismos patogênicos, disse França.
O Cemitério São Pedro, o mais antigo da cidade, localizado em um declive, propicia ainda mais o escoamento da água. Segundo França, as sepulturas, mesmo que cobertas por lajes, podem ter rachaduras e absorver a água da chuva. Para que não sejam criados gases, o que causaria forte pressão, os caixões ficam diretamente no solo, em cima de uma camada de areia. Nesse ponto a enxurrada chega aos corpos.E nem toda a água vai para o bueiro.
Para se produzir um quilo de grão são necessários mil litros de água. Para um litro de leite são precisos 13 mil de água, acrescentou França. A análise da qualidade dos lençóis freáticos, para França, é fundamental. A população precisa estar atenta, exigir esclarecimentos e cobrar ações. O professor informou que uma equipe multidisciplinar da UEL, coordenada pela professora Yoshia Nakagawara Ferreira, começou a pesquisar na cidade os riscos ambientais em todos os níveis.
Conforme informações da Acesf, em Londrina ocorrem em média 350 sepultamentos por mês. Nos cemitérios católicos ou evangélicos, o que muda nos túmulos são as edificações que ficam acima da superfície.





