Bisneto de um dos 11 escravos herdeiros dos 3.600 alqueires na região de Guarapuava, deixados pela fazendeira dona Balbina Francisca Siqueira, o negro Eugênio Soares Guimarães, o seo Geninho (fotos), é um dos protagonistas de uma história de resistência, reconhecida agora com a certificação pela Fundação Cultural Palmares, oficializada no dia 28 de setembro, na Unicentro, considerando a Comunidade Paiol de Telha uma quilombola por reunir descendentes de escravos.
Seguidas expropriações das terras da Invernada Paiol de Telha herdadas pelos negros, em 1860, levaram alguns dos descendentes da comunidade, que chega a mais 700 pessoas, a viverem em favelas na região de Guarapuava. Como seo Geninho, que mora numa tapera no Jardim Planalto, na periferia.
Um erro histórico também empurrou um grupo remanescente para o assentamento batizado com o nome da antiga área, Paiol de Telha, a 26 quilômetros de Guarapuava, tratando-o como sem-terra.
Uma história que iremos contar nos próximos dias e que revela a saga de famílias que, ao perderem a terra e o legado cultural dos ancestrais, não desistiram de reivindicar o chão onde os lastros de parentesco e compadrio foram semeados, garantindo a sobrevivência dos descendentes no ''exílio''.
A certificação da Fundação Palmares acena para Geninho sentado na varanda do barraco, com a possibilidade de voltar para as terras que, atualmente, são administradas pela Cooperativa Agrária Mista de Entre Rios.
A reportagem tentou um contato com o diretor-presidente da cooperativa Jorge Karl, que preferiu se pronunciar somente quando receber uma comunicação oficial sobre qualquer decisão judicial em decorrência do reconhecimento, já que abre uma porta para os herdeiros terem a terra de volta.
Na periferia de Guarapuava e no assentamento Paiol de Telha, onde um grupo de descendentes foi assentado pelo Incra, em 1998, a Folha encontrou alguns herdeiros. Seus relatos incluem tortura, queima de casas pelos grileiros, destruição de cemitério e igreja, numa tentativa de apagar a memória dos ancestrais, marcas do processo de expropriação. ''Eu saí do falecido Fundão para não morrer'', lembra Geninho, enchendo com tristeza o barraco vazia onde mora.
Abrindo caminho entre o pouco que restou ao líder negro - uma tarimba para dormir, umas latas de mantimentos e um fogão de lenha - os relatos sobre os primeiros episódios da luta pela terra chegaram ao conhecimentos dos padres da Paróquia Nossa Senhora de Belém, de Guarapuava.
Os religiosos Napoleão Iuber e Cassiano Waldener atenderam alguns negros, que diziam ser herdeiros da dona Balbina e reivindicavam o testamento da fazendeira, lavrado pelo sacerdote da antiga capela, que deu origem à diocese.
O original do documento manuscrito atesta numa das cláusulas a inalienabilidade da propriedade, que não poderia estar em outras mãos se não dos pretos, que herdaram a terra.
Noutro carreador dessa história, em 1988, no meio de uma ocupação do Movimento Sem-Terra, no município de Inácio Martins (54 quilômetros ao Sul de Guarapuava), alguns negros também se manifestaram, acusando a Cooperativa de ter roubado a terra deles, e pediram ajuda à Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Primo e compadre de Geninho, o seo Sílvio Soares teria sido um dos últimos a deixar a invernada. ''Os homens me pegaram aqui em Guarapuava. Um deles foi o Carioca, que era oficial de justiça. Eu estava na casa de um primo, o Domingos Gonçalves. Me algemaram e me levaram até a fazenda. Se me batessem, eu batia também. A minha casa foi queimada. Os jagunços do delegado Pacheco fizeram muita bagunça'', lembra Sílvio.
Os relatos dos negros são atestados pela CPT, que acompanha o caso, e constam de levantamento antropológico realizado pelo Núcleo de Estudos sobre Identidade e Relações Interétnicas da Universidade Federal de Santa Catarina, elaborado para ajudar a conseguir a regularização fundiária da comunidade.
Se recuperando de uma fratura na perna, aos 78 anos o aposentado espera poder voltar à labuta, cutucando o passado para contar que os herdeiros criavam porcos, gado e mantinham culturas de subsistência. Ele foi um dos últimos a deixar o Paiol de Telha na derradeira fase das expulsões.
Olhando para as labaredas de dignidade desse povo sopradas sobre a terra que reivindicam, os herdeiros não se amedrontam diante da porteira fechada até pela Justiça, que passou sobre os remanescentes quilombolas como a tropa de cavalos dos jagunços, pisoteando os direitos dos negros.
Num viés constrangedor da história oficial, a primeira desapropriação dos quilombolas foi patrocinada pelo sobrinho e afilhado de dona Balbina, Pedro Lustoza de Siqueira, que aproveitou da confiança dos negros e se apossou de metade das terras da invernada, restando somente 1.240 alqueires da área total herdada.
O barulho de casco dos cavalos dos jagunços na lembrança dos descendentes traz a figura de João Trinco Ribeiro, personagem da segunda desapropriação, que numa artimanha pegou o nome de alguns negros em cima da capota de um jipe, que supostamente transferiram os direitos hereditários para ele e Alvy Baptista Vitorassi, em 1967.
No breu histórico aparece outro personagem, citado por seo Sílvio, o delegado Oscar Pacheco, o Diabo Loiro, que ajudou a grilar a terra dos negros. Ele ainda perturba Geninho.
''Um primo meu vendeu o direito dele para o Pacheco. Eu vim na cidade, ajustei uns homens, aproveitei que os capangas dele estavam jogando truco e consegui sair, levando os meus porcos'', lamentou, o bisneto de escravos, o dia em que deixou a invernada, carregando mais de 80 cabeças de porcos.
Numa teia para expropriar os herdeiros, a procuradora dos descendentes de escravos e libertos na questão foi Iracema Trinco Ribeiro, esposa de João Trinco Ribeiro, suposto comprador dos direitos hereditários.
Anos mais tarde, curiosamente, o juiz Amoriti Trinco Ribeiro, filho de João Trinco Ribeiro, da Comarca de Pinhão, concede à Cooperativa Agrária Mista de Entre Rios a posse definitiva das terras, que pertenciam aos negros, como dona Ondina Maria de Jesus, uma das mais idosas moradoras do assentamento Paiol de Telha.
''Eu era viúva. Saí do Fundão com quatro filhos e dois sobrinhos, quando houve a tragédia deles queimarem tudo. Os filhos tinham ido trabalhar no mato. Os jagunços disseram: 'Sai daqui, porque aqui não é seu'. Respondi: 'Sair para onde, sem dinheiro'? 'Ou sai ou queimamos a senhora com as suas crianças'. Então, fui levar comida para os meus filhos. Quando voltei estava tudo queimado'', narra a mulher atracada ao horizonte iluminado pela possibilidade de poder voltar para a invernada, que em 1974 teve uma escritura pública de compromisso de compra e venda de terras lavrada entre Pacheco e a Cooperativa, que supostamente teria adquirido 1.600 alqueires restantes da herança dos escravos e libertos de dona Balbina.
Pacheco teria vendido uma propriedade que não lhe pertencia, como tentam atestar os negros, desencadeando a expulsão das últimas 70 famílias.
Desde que os remanescentes quilombolas foram expulsos, o retorno para a invernada é sinônimo de liberdade, expectativa que toma conta até das novas gerações.
Na próxima edição, acompanharemos a história do líder quilombola Domingos Gonçalves dos Santos, que esteve à fente de várias ocupações. Também conheceremos moradores do assentamento Paiol de Telha, que estão endividados não conseguindo financiamentos para o plantio. Ainda conheceremos as novas lideranças quilombolas e os passos que a certificação da Fundação Palmares dará no processo de devolução das terras, como esperam os herdeiros da Invernada Paiol de Telha, entre os quais seo Geninho, Sílvio e dona Ondina, para quem a liberdade se mistura com o sentimento de saudade.

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