Espaços para compartilhar esperanças
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de março de 2009
Carolina Gabardo Belo<br> Equipe da Folha 
Torneira pingando, porta rangendo, gavetas abertas, toque do telefone e trânsito movimentado. Incômodos mínimos decorridos de situações comuns que se agravam e podem causar um ataque de nervos a muitas pessoas. Coisa de louco? Não. O descontrole emocional é muito mais comum do que se imagina e as pessoas chamadas neuróticas passam apenas por um momento de insatisfação.
O termo neurótico causa estranhamento e promove o preconceito. Por isso, a autoaceitação da doença é demorada e são poucos os que se submetem ao tratamento. "Feliz é aquele que enxerga. Eu digo que nós, que participamos do neuróticos anônimos, somos uma elite privilegiada de doentes emocionais que buscaram e encontraram um caminho para a recuperação", afirma Neide (os nomes utilizados nesta matéria são fictícios), 65 anos, frequentadora da irmandade Neuróticos Anônimos (N/A) há 15 anos.
No grupo, as pessoas com problemas emocionais têm a oportunidade de compartilhar suas experiências e escutar depoimentos de quem passa por situações semelhantes. Assim como as demais irmandades de anônimos, a recuperação vem da ajuda mútua, por meio da terapia do espelho, em que os participantes falam, escutam e refletem. São relatos de pessoas que não conseguem conter seus impulsos emocionais, sentem-se muito nervosas e, por isso, infelizes.
Não são apenas os neuróticos que têm um grupo para dividir os problemas e buscar apoio. Viciados em álcool, consumidores e devedores compulsivos, entre outros distúrbios, também contam com grupos de autoajuda (leia mais nesta página). São formas de controlar os distúrbios compartilhando impressões, dificuldades e também as conquistas.
Todo dia
No grupo do N/A, o período de recuperação dura 24 horas, que se repete diariamente. O objetivo é manter o equilíbrio emocional durante esse tempo, vivendo um dia após o outro. Para isso, os participantes usam o lema "Só por hoje evitarei o descontrole emocional". Como consequência, os chamados neuróticos em recuperação administram seus problemas e dificuldades sem grandes sofrimentos.
A neurose é consequência de um desconforto, dor ou insatisfação. O principal motivador desse quadro é o desamor, em que a grande maioria das pessoas apresenta o quadro da perda de um amor. "Os causadores são a falta de amor e a falta de amor-próprio, quando a pessoa não se conhece, não se valoriza e não vê o que tem de bom", analisa Neide.
Nas reuniões, os participantes têm acesso à literatura que apresenta os 12 Passos e as 12 Tradições, que pregam uma convivência harmoniosa e feliz. O tratamento é constante e conquistado a cada dia, com o conhecimento de que somos humanos, passíveis de erros e falhas. Os encontros não contam com orientações profissionais e todos compartilham seus problemas sem diferenciação.
A oportunidade de ser ouvido sem sofrer preconceitos deixou o técnico em estatística aposentado, Pedro Paulo, 56 anos, à vontade para participar das reuniões do N/A. Depois de 17 anos no alcóolicos anônimos, ele está há um ano compartilhando seus problemas emocionais e não perde nenhuma das reuniões realizadas duas vezes por semana. "Saio de lá calmo, consigo esvaziar meus pensamentos e me acalmo. Quando estou numa boa, recarrego a bateria", conta.
Depois de passar por uma depressão que lhe rendeu, aos 30 anos de idade, a aposentadoria no emprego, o integrante da irmandade se orgulha de agora ser respeitado pela sua família e pela comunidade em que mora. "É um crescimento espiritual, moral e material", diz, quando compara a relação com sua família antes e depois de participar do grupo, que define como o céu e o inferno.
Para Pedro Paulo, cada dia deve ser vivido de cada vez, com calma, e tudo em seu momento certo. "Só por hoje. Ontem nós conseguimos, amanhã não sabemos e a batalha é hoje. Com serenidade, primeiro as primeiras coisas".
Compulsão sexual
A Capital também conta com uma irmandade de anônimos que sofrem de compulsão sexual. Manuel, 35, um dos integrantes do grupo, explica que o problema começa quando "extrapola o equilíbrio, o que causa um desconforto. As pessoas perdem a vida, a identidade. A gente passa a ser um escravo da situação, não existe aquela cumplicidade da relação conjulgal".
Irmandade recente, os compulsivos sexuais anônimos não são recomendados apenas a pessoas em tratamento. Para Manuel, é uma oportunidade de ter contato com novas experiências e de auto-conhecimento. "Quem participa conhece uma realidade maior da vida. Aprende a direcionar a energia para o relacionamento, para a coragem, a humildade e a generosidade", afirma.


