Os paradigmas comuns a estudantes cotistas foram vencidos por Silvia Castro, 27 anos, durante o período em que cursou Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL). ''É um engano pensar que o único desafio enfrentado por negros e pardos é conseguir entrar na universidade através das cotas. Manter-se no curso exige muito esforço e disciplina'', afirma.
Silvia diz que já havia prestado dois vestibulares antes de conseguir uma vaga pelas cotas em 2005. ''Sempre estudei em escola pública e comecei a trabalhar com apenas 15 anos para ajudar nas despesas de casa. Na época do vestibular eu trabalhava como escriturária de manhã, dava aulas de balé à tarde e tinha um emprego de caixa à noite. Acho injusto tentar disputar uma vaga com uma pessoa que dedicava todo seu tempo aos estudos'', argumenta.
Ela destaca que é a primeira pessoa de sua família a fazer um curso superior e lembra do preconceito sofrido na universidade. ''Meu pai é operador de máquina e minha mãe auxiliar de enfermagem. Eles incentivaram a mim e aos meus dois irmãos a estudar, mas só eu consegui me formar. É muito difícil romper esse ciclo de abandono dos estudos. Durante a graduação sofri preconceito velado a ponto de em uma avaliação em grupo eu ficar com uma nota menor que os demais integrantes'', enfatiza.
Para atingir sua meta, Silvia destaca que contou com o apoio da mãe. ''Eu tive dois filhos ainda adolescente, o primeiro com apenas 17 anos. Esse é uma realidade bastante comum para quem vive na periferia. Mas minha mãe se propôs a me ajudar e cuidou de meus filhos para que eu pudesse estudar'', diz.
Vencidos estes desafios, Silvia continua investindo na área acadêmica. ''Me formei em Jornalismo em 2010 e já ingressei no curso de Mestrado. Nunca reprovei em nenhuma disciplina. Isso comprova que após o ingresso na universidade, o aluno cotista consegue acompanhar o curso como os demais estudantes. Pretendo fazer doutorado logo após o mestrado e vou lutar para que meus filhos sigam o mesmo caminho'', enfatiza.
Poupança
O estudante Gilberto Guizelin, 26 anos, conta que também passou por dificuldades para se manter no curso de História da UEL após entrar na instituição como cotista. ''Minha família mora no Interior de São Paulo e eu só consegui permanecer em Londrina graças a uma poupança que meu pais mantinham desde que nasci e que era destinada aos meus estudos'', revela.
Ele diz que sua formação acadêmica foi possível graças às bolsas obtidas em projetos de iniciação científica. ''Juntava o dinheiro com um pequeno valor que meus pais me mandavam e consegui me manter estudando'', diz.
Guizelin destaca que o esforço valeu a pena. ''Depois de formado ingressei no curso de mestrado e agora estou fazendo doutorado. Ganho uma bolsa como doutorando e após concluir o curso pretendo me dedicar à carreira de professor universitário. Sou visto como um troféu pela minha mãe, que é manicure e não teve condições de estudar'', destaca. (M.R.)

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