Escritores lutam contra demônios e descrevem o mal
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sábado, 20 de fevereiro de 1999
Marcos Losnak Especial para a Folha 
Se alguém resolvesse, por qualquer motivo, exorcizar o mal existente na literatura universal, teria muito trabalho pela frente. Tal pessoa teria que trabalhar, de maneira exaustiva, vinte e quatro horas por dias. Teria ainda que arrebanhar uma legião de voluntários para ajudar na complicada e extensa tarefa. Isso porque o mal - assim como o bem - está gravado em grande parte das páginas da literatura.
Em A Divina Comédia, Dante Alighieri (1265-1321) atravessa o inferno conhecendo o cotidiano de Lúcifer, passa pelo purgatório e finalmente conhece o paraíso. Em Paraíso Perdido, John Milton (1608-1674) mostra Adão e Satã vivendo experiências semelhantes até o ponto em que cada um precisa seguir seu próprio caminho. Em Fausto, J. W. Goethe (1749-1832) retrata a lendária história do homem que vende sua alma ao demônio em troca de sucesso. Em Os Irmãos Karamazov, Fédor Dostoievski (1821 - 1881) coloca Ivan, depois de uma conversa com o diabo, chegando a uma dúvida fundamental: a fonte do mal está dentro dos homens ou os homens são levados ao mal por uma força independente deles? Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa (1908-1967) retoma o tema faustiano colocando, supostamente, Riobaldo fazendo pacto com o demo com objetivo de vencer seu maior inimigo, Hermógenes.
Nas grandes obras, o eterno embate de forças entre o bem e o mal é constante. O bem precisa prevalecer, mas para isso o mal precisa existir. Sem seu opositor, o bem perde o sentido. E vice-versa. Pode-se dizer que o eterno dualismo entre bem e o mal é um verdadeiro patrimônio da humanidade. A literatura apenas reflete isso.
Numa abordagem clássica, a literatura sempre procurou trabalhar com dois pólos básicos, a figura do protagonista e do antagonista. Fazendo uso de uma comparação correlata, a imagem do diabo, o capitão do mal, parece ter sido criada, de maneira arquetípica, para servir de antagonista a Deus, o grande protagonista. Dezenas de filósofos já deixaram claro é praticamente impossível estabelecer o conceito de bem sem partir do pressuposto que exista seu oposto, o mal. Toda dualidade necessita de polaridades para sobreviver.
Numa escala mitológica, a concepção de Lúcifer, o senhor das trevas, é fruto da necessidade da imagem de um antagonista para o grande protagonista do mundo, Deus, tenha um opositor. A dramatização da batalha, com todas suas dificuldades, enaltece a vitória.
A religiosidade judaico-cristã sempre defendeu o mal como uma coisa externa ao homem. Uma força que não faz parte do ser humano, mas que se apossa dele. Assim ela pode ser retirada, expurgada, porque não é original, não é um germe interior, mas exterior. A prática exorcista ficou caracterizada como um remédio para um sintoma - e a melhor maneira que igrejas encontraram para exorcizar a literatura foi a queima de livro e a perseguição a seus autores.
Com o surgimento da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) oferece uma nova visão para o caso. Grande parte das coisas que até então eram considerados como invasão de uma força exterior, passa a ser encarada como fruto de um complexo emocional interior - reprimido no inconsciente - que enfim explode.
Algumas obras literárias anteciparam essa mudança de visão de mundo. O escritor e pintor inglês William Blake (1757-1827), em estado visionário, promoveu o casamento das duas forças dualistas, o bem e o mal. Em sua obra O Matrimônio do Céu e do Inferno ele une, de maneira estética, pólos onde toda afirmação comporta seu contrário. Seus Provérbios do Inferno são famosos:
- O verme perdoa o arado que o corta.
- O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
- A cisterna contém, a fonte transborda.
- O Caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
Durante o século 19 vários escritores passaram desconsiderar certos limites. Quando mais próximos do abismo, mais próximos da realidade. Qualquer pessoa que desejasse tomar consciência do que realmente é o homem, sua essência, deveria percorrer tanto o céu como o inferno. Tocar o mal, o sombrio, com os dedos da estética se tornou a grande subversão literária de Edgar Allan Poe (1809-1849) e Charles Baudelaire (1821-1867). O poeta Arthur Rimbaud (1854- 1891) trancou-se num celeiro durante dias para escrever Uma Temporada no Inferno.
Mais radical de todos talvez tenha sido Isadore Ducasse (1846-1870), mais conhecido como Conde de Lautréamont, em Cantos de Maldoror. Neste livro, Lautréamont travou uma verdadeira guerra contra Deus e toda a humanidade. Usou a estética das trevas para demonstrar que toda perturbação que sentia era uma parte do homem, era própria da humanidade. Assim, a literatura pode ser considerada, com reservas, como um auto-exorcismo do artista, uma luta contra os próprios demônios.


