Escolas vencem desafio da inclusão
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
A noite da última quinta-feira foi pra lá de especial para a adolescente Joyce Aparecida Alves Bueno, de 17 anos. Ela é uma das duas primeiras alunas portadoras de Síndrome de Down a se formar na 4 série do ensino fundamental em escolas públicas regulares de Londrina, depois que uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE), de setembro de 2001, instituiu as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Depois de cinco anos frequentando a Escola Municipal Santos Dumont, na Vila Industrial (Zona Oeste) Joyce recebeu o certificado, e está pronta para novos desafios.
''Agora, vou matriculá-la em um curso profissionalizante, e quem sabe um dia ela consiga um emprego'', afirmou a auxiliar de enfermagem Zilda Bueno, um misto de guardiã, lutadora, amiga e mãe da adolescente, que nunca desistiu de vê-la matriculada em uma escola regular. ''Quando a Joyce nasceu, foi como se o céu inteiro caísse sobre minha cabeça, mas aos poucos fui me informando e passei a buscar os direitos que ela tinha. Sempre digo que no começo é um luto, depois vem a luta.''
A barreira mais temida, e talvez a mais difícil de vencer, foi o preconceito das famílias. ''A ignorância em relação à doença ainda é muito grande'', atestou Zilda, que foi uma das fundadoras da Associação de Pais de Portadores da Síndrome de Down (APSDown). ''Durante três anos a Joyce estudou em uma escola particular, mas lá tivemos alguns problemas com os pais. Quando foi aprovada a lei garantindo a inclusão nas escolas públicas, procurei a Santos Dumont, e apesar de um certo receio no início, deu tudo certo, ela foi muito bem aceita'', reconheceu.
A simpática garota entrou na primeira série com 13 anos. Concluiu a primeira metade do ensino fundamental em cinco anos, conquista comemorada pela mãe. ''Não tenho pressa, está ótimo'', avaliou ela, revelando que sua principal preocupação sempre foi fazer com a filha adquirisse o máximo de independência possível.
Joyce, por sua vez, era só risos no dia da formatura. ''Eu gosto de tudo aqui na escola'', dizia, para em seguida começar a listar os nomes dos melhores amigos. ''Tem a Daiane, a Ana, a Luzia, a Maiara, a Gabi e a Bruna. E também o João, o Luã e o Jader.'' Ao falar das professoras, a adolescente sorria com os lábios e chorava com os olhos, numa demonstração da falta que vai sentir de tanto carinho. ''Não sei do que vou sentir mais falta.''
O sentimento é recíproco. A diretora da escola, Ceila de Camargo Valle, foi a primeira professora de Joyce, e relembrou os temores enfrentados no início. ''Foi a primeira vez que a escola recebeu uma aluna de inclusão, e todos fomos preparados para recebê-la. No começo fiquei bem assustada. Foi um grande conflito que só comecei a resolver quando decidi aceitar a nova situação. Surpreendentemente a resposta das crianças foi ótima. Elas não têm preconceito, e me ensinaram muito'', admitiu Ceila.
A principal lição, segundo a diretora, foi que o portador da síndrome pode aprender e entender tudo, porém em um ritmo próprio. ''A Joyce se desenvolveu muito nestes cinco anos. Nossa preocupação não foi trabalhar com ela o conteúdo tradicional, mas acima de tudo a alfabetização e a sua independência.'' Ceila acredita que a inclusão escolar traz inúmeros benefícios para a criança, mas fez uma ressalva: ''A escola precisa de maior apoio, como um número reduzido de alunos em sala e uma auxiliar de ensino em tempo integral, para que possamos dispensar aos alunos a atenção que eles merecem.''
Na mesma noite, no Conjunto Sebastião de Melo Cezar (Zona Norte), Danieli Zanim de Oliveira, de 15 anos, também recebeu o certificado de conclusão da 4 série, na Escola Municipal Gaspar Veloso. A exemplo de Joyce, Danieli vai deixar saudades. ''No começo foi difícil, enfrentamos muito preconceito por parte de outras mães, mas com os anos ela se tornou querida por todos'', conta a mãe da adolescente, Ivone Zanim de Oliveira, que cumpriu verdadeira via sacra antes de chegar à Gaspar Veloso. ''Muitas escolas a recusaram, alegando que não estavam preparadas para recebê-la.''
Ivone acha que a filha poderia até ter aprendido mais, se as escolas tivessem estrutura para dar mais atenção aos alunos com deficiência. ''Até aqui ela aprendeu o básico, como ler e escrever. Agora quero colocá-la em um curso profissionalizante.''


