Os colégios da rede estadual de ensino se transformaram em ‘‘válvulas de escape’’ da violência juvenil. Assim como em outras capitais brasileiras que ganham as manchetes por causa da delinquência nas instituições, os colégios de Curitiba também reúnem histórias de ameaças de morte contra alunos, tiros, consumo de drogas e brigas de gangues.
Segundo levantamento da PM, diretores de 12 colégios já solicitaram nos meses de março e abril a presença de policiais dentro das instituições para promover operações de busca de armas e drogas entre os alunos. A capitão Míriam Biancolini Nóbrega, que coordena o registro destas ocorrências no 13º Batalhão, revela que a violência está deixando a periferia e se dirigindo para as escolas do Centro da cidade, inclusive as particulares.
Das 393 ocorrências atendidas pela Patrulha Escolar do 13º Batalhão de setembro de 1998 até o mês passado, 44 aconteceram em escolas particulares. ‘‘Há 10 e 15 anos não se imaginava isso’’, afirma Míriam. Só na rede estadual foram computados 266 chamados e outros 83 nas escolas municipais no mesmo período. A policial diz que os problemas constatados nos pátios escolares e salas de aula são provocados por outro fator: a desagregação familiar.
‘‘Esperávamos que as famílias direcionassem melhor a educação destes garotos’’, comenta Míriam. Aliada aos desentendimentos verificados em casa, a policial lembra que a mídia vem desempenhando um papel importante para distorcer a formação intelectual dos jovens. A capitão da PM diz que a escola não pode ser colocada como a ‘‘eterna responsável por tudo’’. ‘‘Os pais têm o dever de começar a tentar ajudar a reverter este quadro’’, acrescenta.
No Colégio Estadual Monsenhor Ivo Zanlorenzi, no bairro Campo Comprido, casos de bebedeiras dentro das salas de aula são corriqueiros, informa o assistente administrativo Cleverson Nico. A média de depredação de vidros e carteiras, por exemplo, chega a uma ocorrência por semana.
‘‘Dentro da escola sempre tem alguma coisa quebrada’’, diz Cleverson. O Ivo Zanlorenzi foi um dos 12 colégios da capital onde a polícia fez incursões para encontrar armas e drogas. No entanto, o caso que mais chamou a atenção de professores e alunos aconteceu há pouco mais de um mês.
Cleverson recorda que dois alunos brigaram no pátio. O que apanhou foi até em casa, se armou com um revólver e retornou. Dois tiros foram disparados contra o adversário. Os disparos só não atingiram o rapaz porque ele conseguiu abrir as pernas a tempo.
O atirador, de 16 anos, desistiu de frequentar as aulas e nunca mais foi visto na escola. Fatos assim deixam Cleverson apreensivo quando termina o trabalho. ‘‘O medo é quando você tem que sair da escola para ir para casa’’, diz o funcionário. No Ivo Zanlorenzi, a taxa de reprovação entre os cerca de 400 alunos do período noturno chega a 20%. Alunos com 16 anos que deveriam estar na 2ª série do 2º grau ainda estão cursando a 6ª série.
As drogas mais comuns encontradas em poder dos alunos são o crack e a maconha, comercializadas muitas vezes próximo as escolas. ‘‘Tem alunos que já chegam sob o efeito da maconha para assistir a aula’’, testemunha Cleverson. Para o funcionário, a escola se tornou um verdadeiro saco de pancadas dos menores infratores. ‘‘Eles chegam aqui e descarregam toda a raiva. Acho que tudo isso vem de casa’’, diz ele.

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