Guaíra - Depois de dois dias de luto, o Colégio Estadual Jardim Zeballos, uma das 26 escolas públicas de Guaíra, no oeste do Paraná, abriu os portões às 7h30 de quinta-feira. Na aula de educação física, alunos resistiam em iniciar as atividades na quadra de futebol. Na sala dos professores, a diretora, Célia Wessel, discutia com o corpo docente como reerguer o colégio e tirar alguma lição da tragédia que abalou a cidade. Principalmente aquele grupo de mestres e estudantes tentava achar algum sentido para retomar a rotina.
Na chacina de 15 pessoas ocorrida na segunda-feira passada, na chácara do Polaco, a 2 km da escola, quatro entre os mortos eram alunos do Zeballos. Mizael, de 16 anos, filho do dono da chácara, estava na 5 série. Leonardo, também de 16, estudava na 6. André e Alex, ambos com 17 anos, estavam na 5.
Outros dois alunos sobreviveram. Rogério, de 17 anos, saiu correndo quando viu uma pessoa ser morta a seu lado, com um tiro na cabeça. Na fuga, levou uma bala nas costas e caiu no chão. Em seguida, ouviu um dos comparsas sugerir outro tiro na cabeça, que não veio. Ele se fingiu de morto por duas horas, ouvindo os demais morrerem ou agonizarem. Fernando, de 16 anos, dono de boas notas no 2º ano do ensino médio, estava ao lado de Karen Vanderlei Soares, de 18 anos, filha do dono da chácara, no galpão onde sete pessoas foram executadas. No meio da sessão de tiros, Fernando não recebeu nenhum disparo. Na confusão, passou o sangue de Karen no rosto e se fingiu de morto. Foi ao velório dos amigos, mas não voltou à escola.
Além dos seis mortos e feridos, eram alunos do Zeballos parentes dos executores. Gleibson Corrêa, de 18 anos, filho de Jair Corrêa, de 52, apontado pela polícia como comandante do massacre, estava no 3º ano do ensino médio. Duas netas de Jair, filhas de Dirceu Pereira de França, de 35, morto um mês antes da chacina, estudam na 6 e 8 séries.
Na secretaria da escola, enquanto preparava a atividade que trataria do massacre com os alunos, no primeiro dia depois do luto, a professora desabafava com os assistentes. ''Se uma tragédia desse tamanho já é dolorida, revolta mais a forma como o crime e as vítimas estão sendo tratados. Fala-se de briga de quadrilha e da morte de traficantes e drogados. Gente... Não podemos simplificar dessa maneira. Morreram alunos, filhos, pais, colegas de classe, pessoas que vivem numa cidade cheia de problemas.''
Depois do crime, duas perguntas continuam a assombrar autoridades, professores, pais, filhos e moradores da cidade - virão novas vinganças? Quando o ciclo será interrompido?

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