Os cursos de Educação para Jovens e Adultos não são mais novidade. Em Londrina, mais de 30 escolas oferecem este tipo de atividade regularmente. Mas a Escola Municipal Maria Carmelita Vilela Magalhães, no Jardim Europa (zona sul da cidade), se propôs a um desafio diferente. Ali, desde junho, um grupo de 11 pessoas – entre 14 e 50 anos – está se iniciando no bê-á-bá, embora nenhum deles seja analfabeto. Pelo contrário, todos têm bom nível cultural e vários chegaram a fazer uma faculdade...na China.
Cinco meses depois, os chineses já se arriscam a falar algumas palavras em português, vários conseguem ler em voz alta e todos demonstram a mesma determinação: entender essa língua tão difícil, leve o tempo que for preciso. Segundo a auxiliar de direção Mariclei Ferro Belchior, tudo começou por acaso. ‘‘A diretora de uma outra escola pediu para a gente receber, no curso de alfabetização, um aluno de 14 anos que não estava conseguindo acompanhar a 7ª série do ensino fundamental’’, contou.
O garoto foi conhecer a escola com a irmã, que também se interessou em aprender o português no curso de alfabetização. ‘‘Ela, apesar de frequentar um curso pré-vestibular na cidade e falar português suficiente para ser compreendida, tinha muita dificuldade em escrever. Tanto que já tinha sido reprovada em um vestibular por causa da redação’’, disse Mariclei.
Com os irmãos, a mãe também começou a frequentar o curso. ‘‘Um foi falando para os outros. Quando a gente viu, já tínhamos um monte de chineses querendo aprender português’’, contou. Como os nomes chineses são difíceis de serem lembrados, as professoras ‘‘rebatizaram’’ cada um deles. ‘‘A gente sugeria vários nomes e eles escolhiam os que mais lhes agradavam’’, disse a professora da 4ª série, Inês Donizete da Costa Silva, que atende hoje seis alunos chineses em sua sala, juntamente com outros 19 brasileiros.
Segundo a professora, no começo foi difícil se fazer entender. O trabalho começou com todos em uma única sala. A garota que foi conhecer a escola com o irmão, hoje chamada de Jenifer pelos colegas e professores, serviu de intérprete. ‘‘Depois de um tempo, avaliamos o nível de conhecimento de cada um em português e o separamos por séries’’, explicou Inês.
A Folha tentou conversar com alguns dos integrantes do grupo. Tímidos e inseguros do português, apenas Su Mi-San, 46 anos, conhecido na escola como Marcos, aceitou falar com a reportagem. Residente na região dos Cinco Conjuntos (zona norte) – não sabe ainda pronunciar o nome do bairro onde mora – Marcos foi o último a integrar o grupo. Segundo ele, ficou sabendo do curso ao procurar uma escola para se alfabetizar. ‘‘Eles me mandaram aqui’’, afirmou. Segundo Marcos, ele sempre foi curioso a respeito do Brasil. Morando em Taiwan, só conhecia o que via nos filmes. ‘‘Achava que era floresta, que tinha canibais’’, brincou.
Um amigo emigrou para São Paulo e, em uma das visitas a Taiwan, entusiamou Marcos a conhecer o Brasil. ‘‘Vim para cá há dois anos. Nesse período, voltei duas vezes ao meu país. Somente há um ano decidi que era aqui que queria ficar, por isso resolvi estudar’’, explicou. Segundo ele, está gostando do Brasil e das pessoas, que chama de simpáticas e prestativas. ‘‘Mas a língua é muito difícil’’, reclamou.

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