Sid Sauer
De Campo Mourão
O Colégio Estadual Osvaldo Cruz, de Campo Mourão, que ontem comemorou 35 anos de fundação, é fruto de um ‘‘movimento socialista’’ que existiu no município no início da década de 1960 e que foi sufocado pelo golpe militar de 1964. A história da criação da escola foi mantida no esquecimento e veio à tona somente agora, quando a diretora Izabel Segura Battilani resolver levantar o histórico do estabelecimento para a comemoração dos seus 35 anos.
Pesquisa feita pela professora Nelci Mello Tomadon descobriu que a escola surgiu em 1963 com o nome de ‘‘Escolinha do Povo’’, na então Vila Operária, onde hoje fica a sede do Corpo de Bombeiros. O estabelecimento não tinha nenhuma ligação com o governo e usava material do pedagogo Paulo Freire para a alfabetização de adultos. A escola, de início com apenas uma sala de aula, era de madeira e foi construída em sistema de mutirão pela própria população. Oficialmente, porém, não há nenhum registro da existência do estabelecimento.
A maior parte das informações foi conseguida com a professora Estel de Mello Figueiredo, que foi a primeira professora da ‘‘Escolinha do Povo’’. Na época, ela era estudante do 2º grau e não ganhava nada para ministrar as aulas. Estel lembra que entrou no movimento apenas para dar aulas. ‘‘Queríamos formar um país melhor e não montar um grupo guerrilheiro’’, conta. Com o golpe militar de 31 de março de 1964, porém, a ‘‘Escolinha do Povo’’ fechou e, dois dias depois, foi transformada oficialmente na Escola Dr. Osvaldo Cruz.
Estel diz que tem poucas lembranças dessa época e que somente agora está conversando sobre o assunto. ‘‘Parece que houve um bloqueio das lembranças desse período em minha cabeça’’, ressalta. Ela lembra, porém, que o movimento tinha a participação de dois padres e que um deles teve que sair do País após o golpe de 64. Esse mesmo padre pediu a ela que ‘‘guardasse bem’’ o material de Paulo Freire usado nas aulas. Com medo, Estel retirou o material de Campo Mourão e colocou fogo em tudo.
‘‘Acho que nunca fui perseguida por causa da minha família, que era de Campo Mourão, e porque não tinha registro na UNE (União Nacional dos Estudantes)’’, conta Estel. Ela lembra que viveu períodos de muita tensão e medo e que ficou sabendo da passagem por Campo Mourão de oficiais do governo que estariam investigando a população. Na época, uma coordenadora do movimento, de Curitiba, com passagens pela UNE, desapareceu da cidade, deixando todos os seus pertences no alojamento onde morava.
Estel conta que surgiram boatos de que a coordenadora tinha sido presa e morta, mas a notícia nunca foi confirmada. Recentemente, a professora descobriu que essa coordenadora ou parentes próximos dela podem estar morando em São Paulo. ‘‘O medo ainda está presente’’, afirma Estel. A mãe dela, Maria da Luz Veiga Mello, que também era professora e foi a primeira diretora da Escola Osvaldo Cruz, que o diga. Até hoje ela não gosta de tocar no assunto e resistiu à idéia de Estel relembrar e contar a história da ‘‘Escolinha do Povo’’.
Nelci Mello Tomadon, encarregada de levantar a história do colégio, também é filha de Maria da Luz e irmã de Estel. Ela era criança na época da ‘‘Escolinha do Povo’’, mas lembra a tensão vivida pela família naquele período. ‘‘A Escolinha do Povo se tornou um assunto proibido e mesmo entre nós, que somos irmãs, nunca mais foi falado nada a respeito’’, disse. Agora, 35 anos anos depois, ela admite prosseguir a pesquisa para ter dados mais precisos sobre o funcionamento da escolinha. ‘‘Tudo já passou, mas na época não foi fácil’’.
Ontem, na solenidade que comemorou os 35 anos do Colégio Osvaldo Cruz, Estel, que atualmente mora em Curitiba, se reencontrou com três alunos da ‘‘Escolinha do Povo’’. Neide Aparecida Lopes, 50, Rosa dos Santos Andrade, 52, e o marido dela, Pedro Rodrigues de Andrade, 55, foram alunos de Estel em 1963. ‘‘Ela pegava na minha mão para me ensinar a escrever’’, lembra Rosa. Para Estel, encontrar alunos da época pode ajudar no resgate da história da escolinha. Não existe, porém, nenhum registro de quem frequentou o estabelecimento.Colégio faz 35 anos e só agora descobre que foi fundado por um movimento perseguido após o golpe militar de 64
Laudo LeonHOMENAGENSPedro Rodrigues Andrade, Rosa dos Santos de Andadre, a professora Estel e Neide Aparecida Lopes durante as comemorações

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